terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Poleiro Aconselha

Esta semana os Galos aconselham:

Cinema:
Pedro o Louco (1965), Jean-Luc Godard

 
O Apartamento (1960), Billy Wilder



Literatura:
-A Metamorfose (1915), Franz Kafka
-A Peste Escarlate (1912), Jack London

Música:
Concertos:
15 Agosto, Largo da Porta Nova, 22h: Hands on Approach
16 Agosto, Largo da Porta Nova, 22h: Squeeze Theeze Pleeze

Exposições:


Grito- Exposição de Pintura de José Ferreira
2 a 31 de Agosto na Galeria Municipal de Arte

Une Femme

Depressa. Organizemo-nos. Luzes! Câmara. Acção! Um café não muito cheio onde as horas já não passavam excepto em direcção à doença da reforma. Ou aquele quiosque onde param os conhecidos que não se vêm. A maquilhagem é clara e o azul predomina. Que postais bonitos, com animais muito amarelos, e sorrisos pouco fingidores. Oh, que ar triste… Em que pensas? Não te vás embora! Boa noite. Feliz não-aniversário. Virgem? Hum… fala em sentimentos, e acontecimentos muito felizes. Pode ser que corra bem. Que música de circo insuportável! Que dor de cabeça…
Era uma vez uma rapariga que amava dois “tipos” ao mesmo tempo. Mandou-lhes um telegrama a marcar um encontro. Duas horas de diferença, um a Norte, outro a Sul. Logo após pôr os telegramas no correio apercebeu-se de que tinha trocado os envelopes. Correu para casa do primeiro, o envelope ainda não tinha chegado; ela é obrigada a contar tudo. Ele atira-a contra a porta quando descobre que a rapariga andava também com outro. Ela corre para o outro lado da cidade, para a casa do outro: o telegrama já tinha chegado. O segundo não parecia nada chateado. Pelo contrário. Muito rapidamente ela explica o que se passou. Então, ele atira-a também contra a porta, e mostra-lhe o telegrama.
A rapariga percebe que não tinha trocado os envelopes.
A história não interessa; apenas o carácter: a rapariga que se engana sempre.
Karina não concorda. Sabe apenas que não há diferença na expressão. Seja verdade ou mentira. Cada um por si, é triste, teria que haver a certeza. Há quanto tempo que não sei que dizer, e tenho medo. Fiquei admirada pelas notícias, e intriga-me a razão. De que vamos falar hoje? Inventar um assunto que não é compatível; fazer pequenas inconfidências, e confessar indirectamente algo? Atravessar todos os pensamentos no anseio de encontrar algo em comum: talvez uma música que expresse o vazio.
Engano-me sempre. Bem sei que deve haver uma diferença entre a verdade e a mentira.
Por enquanto espero e espero. Mas enquanto isso, não me apetece pensar. Já aturei o suficiente; e ainda nada suportei. Deixa-se ir, deixa-se ir. Que visão! Que pose! Que beleza transversal.
A miúda dos dois “tipos” não sabe ainda.
“Volta a ser a rapariga”.
Inventei um truque espectacular. Ouvir o Charles durante a caminhada: ver uma foto e perceber que a foto está desfocada porque a maquilhagem não está devidamente proporcional, e não convém olhar directamente a câmara. Exasperas-me. Não adianta nada beber. Mesmo assim… E quando fechei os olhos vi formas sem curiosidade alguma, sem atracção ou máscara.
Então Aznavour deixou de fazer sentido.

Para,
Anna Karina
(e todas as outras).

L.S.A


Passeios interiores

"Os olhos são um grande rio de sons
Sensações luminosas que alimentam a alma
De quem respira, como se o ar fosse mais leve,
Mais capaz de decifrar a vida
No seu enigmático esplendor.
A sombras que neles flutuam,
Levemente, do cruzamento das ideias,
Do timbre da voz do nada,
Inquieta-os, perpetuando neles a esperança
Fugitiva, que em pranto chora."

Júlia Fernandes


Passeando no Interior parei,
Num momento lancei um olhar
Sobre o horizonte enevoado,
Ferido pelos últimos raios
De púrpura e sangrento sol de tarde.
Um vapor espesso sai de corpos,
Deambulares de rua,
Onde o ruído era menor no ar
E como pilares erguiam-se
em ambas margens do rio ao céu,
O fumo de casas.
Adensavam-se umas sobre as outras,
Como rochas ou penedos
Se amontoam sobre os cimos dos montes
É como se formassem uma nova cidade
Sobre nuvens...

Era como se tudo fosse belo...
Estava a ver o mundo.

Catarina R. Cachada

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Parto

De Bergman a Fellini;
passando por Godard,
revisitando Truffaut.
Se não houver De Sica
podes sempre assistir a Scorsese. E se não te
apetecer ver um filme:
lamento imenso!
É só tomar um lado e escolher,
as vidas que queres acolher.
Não há vida sem andamento.
E cinema
é dar movimento à vida que nem tu
nem eu temos.

Há quem não goste de políticas:
capitães do barco da tristeza.
Anda tudo doido com o sindicalismo.
A mim nada disso tem efeito:
nas minhas veias correm fitas,
e na minha mente passam rostos expressivos.
Sou editor de livros cinematográficos; nem sequer um li.
Mas sabem, que ser cinéfilo não é fácil.
Depois de ver Welles,
a vida sabe a muito pouco.
Nem Kafka me descansa o Existencialismo.

Entrei em todos os locais que pude, enquanto pude.
Rondei todos os bares, e vielas,
andava eu à procura do Mastroianni.
Em vez dele, encontrei a Sophia,
e ele! Fazia-lhe ela um striptease.
Tal escandaleira nunca antes vi.
Até que comprei o Ultimo Tango Em Paris,
e admirei-me com tanta manteiga.
Não era Light.

Que diabo, cinema, cinema.
Citações sobre cinema encantam-me.
“Tudo que precisas pa fazer um filme
é de um revólver e de uma miuda.”
Cinema, cinema. Luz.
Eu te louvo, meu cinema.
Meu amor.

Casablanca entrou-me de rompante.
Parecia um vendaval. Em Marrocos!
Bergman e os planos. Bela!
Bogard procurava água no deserto,
outros procuravam fuga.
Outros encontravam a fuga lá.
Outros viram o filme porque não tinham mais que fazer.
Todos nós nos encontramos em Casablanca.

Depois lutei ao lado de Scarlett O’Hara.
Forte como ela, eu fui…
Ninguem me subjugou, enquanto a tinha em minha mente.
Aproveitei a boleia da Vivien Leigh até ao
Electrico Chamado Desejo!
Brando, Brando…

Selvagens entre mil, venturosos.
Homens sem medo, com sentidos:
meu Paul Newman,
meu Steve McQueen,
meu Sidney Poiter…

E Dean! Amado e respeitado,
por todos os jovens que te viam um espelho.
Rei tu não precisaste ser, Rebelde Príncipe.
Lá te foste tu embora antes de nos dizeres a fórmula
para Sempre Jovem Ser.
James Dean, you’re not tearing me apart.

Vós, ó geração de sessenta,
não vos ides agora.
Fiquem, fiquem.
Todos vós, belos e jovens, numa época de utopias.
o meu cinema como coisa vossa,
o alimentaste,
o conservaste.

E agora: Honoré.
Duris;
Duris, Duris. Eterno camaleão.
Garrel. Caminha pelas ruas de Paris, com os olhos no céu:
procurando uma espécie de luto. Por entre lágrimas subindo o subway: sem respostas. E cada minuto
é como um túmulo,
Garrel que luta.
Carismático.
Em breve será apenas uma memória:
cinzentas são as ruas.
As ruas de Doinel.
As ruas de Garrel.

Cinema, cinema, com todos os teus heróis,
filósofos, pensadores e racionalistas.
Estrelas e futuras estrelas.
Artistas!
Não meu és indiferente.
Meu primeiro amor,
para sempre,
insubstituível,
para além do,
substituível.
Cinema, a arte de fazer acontecer
coisas boas
a mulheres bonitas.
Cinema,
não
é necessário beleza ter
para em mim beleza conseguires
suster.


“Quantité de personnes ont ainsi une âme qui adore nager. On les appelle vulgairement des paresseux.”


Isabel (L.) Arantes

Mãos

Costumamos cercar de palavras as grandes catástrofes para nos protegermos delas.
Recordo o tempo, citando palavras sem significado que sem saber bem porquê, me dão alguma orientação: fazendo-me sentir bem. O silêncio que outrora dera conta de mim, hoje sou eu quem o tenta reencontrar e trazê-lo de volta. Compreendi que se o fizesse reviver talvez reencontrasse a alma perdida que de mim voou pelos campos enormes de trigo que hoje se substituem por enormes construções.
Para mim voltar a ter alma è voltar a poder sentir que palavras justas e com sentido saem da minha boca como uma melodia que se confunde com o vento.
Palavras essas que sendo informais são a seiva da literatura, a matéria bruta a partir da qual se constrói uma história.
Da literatura que aparecera como uma criação fictícia já só lhe resta leves memórias.


Essa mão jamais a esqueceremos...

Visitem a Feira do Livro em Barcelos.



Catarina Cachada

sábado, 14 de junho de 2008

Existencialismos:

 





VAZIO 








Zita Esquerda de Sá








sexta-feira, 13 de junho de 2008

Façam Vénia

Eu. Começo a reunir forças como reunia tropas. A minha juventude passada ajuda-me a combater as excentricidades excessivas de jovens que aparecem e pensam que ao ser criativos todos os seus actos serão justificados.
Barcelos minha já foi, num tempo onde cultura se fazia com base na nossa gente, viam-se as caras das pessoas no meio de campos de milho, as saias bailavam ao vento como uma bandeira de uma nação forte e sem actos com falta de responsabilidade. Há muito tempo que queria dar o meu tempo para explicar aos nossos jovens como podem ser respeitados de novo. Antes deste conformismo geral que se instalou nos cadetes da vida faziam-se revoluções para melhorar o seu redor, agora sou eu que aconselho a revolução dentro de cada um dos insubordinados.
Amem as vossas mães e pais, pois cedo e bem ficarão com semelhante encargo. Construam, empreguem, falem! Mas não entorpeçam regimes com as vossas causas fúteis. Formem um pelotão organizado de pensadores que não pensem com as palavras dos outros: fogo neles! Quero ver a disciplina outra vez, por isso vamos lá fazer uma vénia. Façam, façam porque quem manda é quem tem o poder e não quem é mandado.
Podem dispersar.

General Antunes

terça-feira, 3 de junho de 2008

O Poleiro Aconselha

Esta semana os Galos aconselham:

Cinema:
O Fabuloso Destino de Amelie (2001), Jean-Pierre Jeunet

Literatura:
A Luz Prodigiosa (2004), Fernando Marías

Música:
Simon & Garkunfel,
Sound of Silence (1965)

Inevitavelmente a Crítica à Razão


Quem

o seu povo

o mundo todo!
Esta é a regra. Em Barcelos os Homens são vistos, e o mundo é projectado.
A decadência não convém agora citar.
Rosa Côta:
sua herança carregada de sabores minhotos está nos Paços do Concelho.
Espera uma visita.
Mas atenção! Não há lá dístico azul.

Ontem ouvi o seu nome
no caminho que levava um rumo sem sinal.
Não sei onde me leva esse tal caminho
mas era de lá que o seu nome se manifestava.
E eu segui...
Apenas porque o cheiro do caminho se confundia
com o cheiro do seu barro e da sua pintura.
Porém ela esperou por mim.

Espero apenas um sinal.
Esperas apenas um sinal.
E eu acredito que
talvez a vida seja uma mistura de sonhos
com realidade.
Mas eu vi
a exposição de Rosa Côta.


Catarina Cachada & Isabel Arantes

Visita Guiada

Desce, desce, desce. Não olhes para o lado direito, isso ficará para uma outra altura, o objectivo de hoje é um pouco diferente.
Em frente, sempre em frente. Começas por ver janelas para um mundo exterior bastante fictício, colorido, alegre, não é??? Ainda não é aí, segue em frente, só mais um pouco!
Isso, aí, aí mesmo. O que vês? Bem te avisei que não era assim tão fácil, mas quem procura pacientemente, está bem mais perto de encontrar.
Olha, sentes-te sozinho agora, ou só prisioneiro de alguma coisa de que nem te dás conta? Pois, também me senti assim, mas só mais logo te vais dar conta, entretanto move-te.
Mas olha só, desprende-te um pouco e agora sente o toque, a luz, o som! De qual destes gostas mais ao nível do som? Oh, não! Nesse não há qualquer som, é só luz, cores… blaaaarg! Este sim, tem uma intensa sonoridade, hummm!
Bem bem, tanta fraternidade. Não saberão eles que a utopia é algo que só os loucos e os sonhadores admiram?
Ah, isto sim, isto é que é vida real! De que lado queres ficar? Então não percebes, olha o título Faixa de Gaza, diz-te tudo. Eu gosto dos da direita, têm ar de quem não tem mais nada para fazer, os da esquerda levam isto tão a sério…
Agora sim, algo que não consigo compreender. Afinal não é essa a essência da obra de arte? Oh sim, tens razão. Cabelo comprido, ar de carpideira, é isso mesmo! Esses grandes intelectuais é que têm razão ao banalizar estas Inquisições tão pacóvias.
Este não, não olhes sequer: pura ofensa sensitiva. Sigamos em frente.
Eia, que beleza, que maravilha! Não percebes onde está a arte? Oh, deixa-te disso. São preciosismos que ultrapassam a irrelevância do nosso ser…

Jorge Marques

Palco

Entrei na sala de cinema, escura e com um claro odor provindo do ar condicionado, cuja última prestação fora paga no mês a seguir à queda das torres do World Trade Center, me sufocava e convidava a sair. Estava vazia, ou assim o pensava eu, e por entre a falta de clarões verifiquei que afinal alguém permanecia na fila L ou P, com margem de erro 2: aquela letra em comum. Lugar 1. Quando tudo surgiu...
Ó límpida imagem, porque te foste? És mais não uma razão. Então. Redonda volta e círculo. Almejo por melhores dias de circuito. Ó floresta aquática: de sombra. Simples em rudeza. O tudo é teu. Somos todos teus. Vi-te e não te vi, continuamente... não! Era um rescaldo. Desviarem-se. Voltei. Olhei. Reparei. Sinónimos outros usei. Analisei. Esperei. De novo subo a escada. De novo a desço. Luz. Cor. Não luz. Diria cor. Voz precoce: grave! Sorriso ultrapassado: Leve. Melodioso. Nem grave, nem agudo. Soube um adjectivo. Não me parece que voltem lá. Talvez hoje mas não amanha. Assim eu fugia: caminho. Falo e falo. Quer dizer, não falo assim tanto. Distante é o Paraíso. Distante, mas não longe. Suponho. Nós somos os sobreviventes. Eu sou.
Oblíqua ceifeira difusa, por entre sons confusa. Não me parece que haja um sentimento consequente. Ora lá, que desespero não existente. Veste-te e foge. Corre. E chegarás a tempo. Além-mar verás o que os pagãos te grunhiram. Longe do Paraíso, por entre impérios e céus: tudo transparece, o sonho humedece depois de tudo, do nada, algo resta. De novo dor. De novo fuga. Razão e mente. Razão novamente; argumento racional, com espelho sensitivo. De novo razão. A culpa surge e o retrato perde o brilho do rosto. A alma reluz por entre sombras. O nome te define. Inevitavelmente. A concepção e a solução sem a diferença dos que acreditam na possibilidade. Naquela obra mal realizada, deficientemente realizada. Eu acredito na leveza insustentável do ser. É possível; não é utópico. A todos aqueles que acreditavam eu glorifico! É possível (o que por si só já é utópico...)! Dá uma sugestão diferente, pode ser que consigas alcançar o número da sorte e difundir a tua identidade num cartaz de rua, rasgado e sujo, sem luz ou cor, ou preto, ou branco, ou amor, antagonismos e compaixão. Exarcebados. Liga-te e não repitas as arestas; inventa-as... Cuidado com os pares, eulariza-lhes a fonte!
Barroco em som, em intransigência. Vê como te choro, vê como fiquei, sem sangue e sem lágrimas. No céu virá o futuro: da chuva, ou de um meteorito. Nada mais tenho que sentir, além do pós Classicismo. Vê como te luto em sangue e em lágrimas. Consigo viver não, que não sons de claviers fantasmas. Sem grande pendor técnico. Apenas a melodia que navega por entre ruas e vielas, obscuras e apagadas. Nada mais decadente há que o final de um livro realista: quando o pano cai, e a natureza humana é deposta: melosa veia artística pastosa. Melancolia observada ao longe por racionalistas do coração. Femininamente falando, não há nada a dizer. Ninguém depois do sufragismo voltou a ser personagem do final realista. Elucidamente descrente.
Gostava de te transcrever em palavras aquele som, lá ao fundo, do piano sobrevivente, observá-lo e após isso, reivindica-lo só para ti, e depois, nada mais existir...




O cinema fechou as portas.
L.S.A.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Uma questão de equilíbrio

Acordes suaves de uma melodia
composições reconfortantes de um livro,
posso saltar nota a nota rumo à cultura.

Sentimentos que jorram numa torrente de emoções
o deserto de uma cultura barcelense, uma luz na escuridão.

Um pedaço de um trailer uma cena no vendaval.
A minha cultura solta nas mãos de um qualquer
uma tela pendurada no vazio,
uma exposição, um último pedido de atenção.

Uma letra solta veio mergulhar no nada,
canções entrelaçam-se ao vento.
Olhei uma pintura amontoada,
orvalhava cenas de um filme.

As palavras são simples essência da vida
canções de amargura,
telas pintadas que se infiltram na pele
algo que vem e que vai,
mas a cultura fica.

Surgiste como um suspiro de leve
e sem palavras te impuseste
aproximaste-te do meu concelho
e a sorrir apertei o galo junto ao peito

a tremeluzir uma réstia de cultura...

Catarina R. Cachada

O Poleiro Aconselha

Esta semana os galos aconselham:

Cinema:
A Corda(1948), Alfred Hitchcock
As Canções de Amor(2008), Christophe Honoré

Literatura:
A Conspiração(2001), Dan Brown

Música:
Ludwig Van Beethoven
Sonata No.32 Op.111 (1º and.)
Sviatoslav Richter
http://br.youtube.com/watch?v=CBFphuxUlQA

Concerto:"Sons da Vida" Esc. Sec. /3 Barcelinhos - 6 de Junho

Arte:
"Multiplicidades" Exposição de Pintura de Maria Tereza Cortez
24 de Maio a 22 de Junho de 2008 - Biblioteca Municipal de Barcelos

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quinta-feira, 29 de maio de 2008

Ermo Teatral

Um simples conceito de dicionário:

Teatro, s.m. casa onde se representam comédias, etc.; arte de representar; literatura gramática.

(Dicionário de Língua Portuguesa – Porto Editora, edição 2005)

Depois do espanto veio um pouco de compreensão. Afinal, o que é o teatro?

Visto não ser preciso muito tempo nem muitas reflexões para elaborar uma “tese” fantástica que refute a ideia original, não me alongarei muito. O barroco está morto e enterrado, assim como Agripa, esse morador do século XVIII, trovador de cantigas de escárnio e maldizer, não aceite pela contemporaneidade saramagueana.

Como dizia, este conceito de teatro provocou-me. O que significa, afinal, um etc.? Não será um pouco incompreensível definir um teatro como uma comédia e mais alguns “tipos”? Mesmo os ilustres gregos da Antiguidade já conheciam pelo menos outro tipo de teatro para além da comédia!

É sempre bom chegar a uma familiar biblioteca e depararmo-nos com boas revistas, livros e jornais, mas também, se possível, um lote de boas exposições, anúncios de concursos…afinal uma biblioteca é, necessariamente, um local de aconchego onde fomentamos o nosso saber e imaginação!

Portanto, é com agrado que constato que os coordenadores das duas bibliotecas que mais frequento têm o bom senso de organizar nestes espaços algumas exposições com valor. Primeiro, no início deste ano de 2008, encontrei a exposição “O que é o Teatro?” no hall de entrada da Biblioteca Municipal de Barcelos. Posteriormente, dei de caras com essa mesma exposição na biblioteca da Escola Secundária de Barcelinhos.

Não foram muitas as peças de teatro a que assisti, mas conhecendo um pouco da história do teatro, e tendo visitado a exposição acima referida, consigo organizar ideias suficientes para não concordar plenamente com a definição de teatro, tanto o edifício como a arte em si, como uma “literatura dramática”, uma “arte de representar” ou uma “casa onde se faz rir” (já ouviram falar de teatro de rua?), etc.. Luís de Sttau Monteiro teria para nos dar, certamente, uma proveitosa lição, mais ou menos actual do que se trata, afinal, o Teatro. Uma liçãozinha de Gil Vicente poderia ser, até, muito mais contemporânea do que a própria contemporaneidade.

Convido, então, cada um de vocês a visitar a exposição “O que é o Teatro?” e construir a sua própria tese sobre o que aqui escrevo. Informo também os interessados, que este mês HÁ TEATRO em Barcelos. Para uma maior pormenorização basta consultar os recentes conselhos d´O POLEIRO ou a Agenda Cultural de Barcelos de Maio/Junho de 2008. Talvez daqui a uns tempos os barcelenses possam também falar sobre o que é teatro (edifício).

Quanto à infeliz definição de Teatro, já agora, como será que se diz, ou define, TEATRO em brasileiro? Tenho uma suave impressão de que o saberemos brevemente, nobre português…

Jorge Marques

terça-feira, 20 de maio de 2008

Onde a cidade começa e a Linha acaba

“Então, ficamos?”, questiona. Não sei, não sei. Um primeiro olhar e reparo que talvez valha a pena ficar.
Um risco oblíquo aqui, outro risco colorido acolá, deixando-nos pensando onde começa e onde acaba este risco, ou será que é um caminho que nos faz querer seguir…Não é apenas um pintor, mas de certeza um retratista que valoriza Leninegrado e outras cidades que desconheço.
Não sei o que pensar ou o que sentir, olho e não vejo, se vejo não sinto.
É óbvio que é tinta sobre tela, mas não sei se é aquilo a que chamo pintura sobre uma tela que será visível perante uma multidão.
Continuo sem sentir, talvez seja defeito meu, ou será que é feitio?
Não interessa o meu existir, pois todos estão concentrados tentando perceber o que aquela tela significa.
Saio fora da Galeria Municipal de Arte…de Barcelos e reparo que a cidade afinal existe. Nos meus sonhos. Ups! Olho em volta e a cidade é um stress tipicamente citadino, pessoas passam de um lado para outro falando ao telemóvel. Com a família? Nah! Família, essa palavra existe. Mas qual o seu significado? Agora são apenas duas ou três pessoas que se juntam à mesa a jantar e olham para a televisão em busca de viver uma vida que não a sua.
Há duas ruas ali ao lado que possuem um cheiro imperceptível. Vão de encontro à Câmara Municipal. Uma não foi esquecida, anda em obras. Devem pensar que alguém passará por lá. Outra, essa, esquecida foi; pelas obras poderá um dia ser lembrada.
“Nada que me impressione”, responde-me, em tom cansado, uma velha da sua varanda.


Catarina Cachada

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Os Galos Aconselham

Esta semana os Galos aconselham:

Cinema:
De Tanto Bater o Meu Coração Parou(2005), Jacques Audiard


Literatura:
Exposição das ilustrações dos livros infantis de Elsa Lé
Biblioteca Municipal

Música:
Concerto "Quadrilha"- música popular
Forúm S. Bento Menni
dia 23 Maio, 22h

Onde a Cidade acaba e a Linha começa

Há uma rua ali em frente que tresanda profundamente. Alguém se esqueceu de a frequentar nos últimos… 40 anos! “Nada que me impressione”, responde-me, em tom ríspido, Benjamim.
Encontram-se em Barcelos diversos pedaços de um futuro estilhaçado pelas curvas, linhas e contracurvas que Nadir Afonso resolveu deixar a gerações vindouras, com ou sem tiques de Egocentrismo desnaturado.
A cidade não existe, é o demónio que beijo nos meus sonhos. Nadir tratou de alinhar e centrar num espaço branco alguma daquela substância que está perdida por entre frinchas industriais ou simples bilhetes comprados numa pacata gasolineira.
“E tu?” é algo que não se pergunta. Não se deve perguntar. Espera-se não ser preciso perguntar! Entretanto, chega O Apocalipse: devaneios citadinos com traçados de ruralidade promíscua, profundo desligar de relações minimamente informais. Que fazer? “Oh Bernardes, deixa esse quadro, passemos ao próximo”.
“Isto é uma ponte”. Sim, é óbvio que isso é uma ponte. “Aquilo é um prédio!”. Sim, também é óbvio que aquilo é um prédio. Mas… repara naquela gaivota por cima do prédio, o jardim por baixo da ponte e o fósforo pousado no parapeito daquela janela, olha!
Sente-se o cheiro do sol que espreita pelas janelas da Galeria Municipal de Arte, aconchegando-se na criação que convida ao júbilo do recorte, a tesoura ou x-acto, não das próprias telas, mas dos efervescentes “percebedores” de tudo ou de coisa nenhuma. Leninegrado e outras “Fluorescences” cidades posaram para que Nadir Afonso as retratasse, “As Amantes de Lúcifer” lutaram entre si para decidir qual seria a primeira a ser pintada, porque não olhar uma segunda vez?
Um risco na vertical ali, outro risco na horizontal aqui, o livre-arbítrio começa a ser deixado para trás e é o próprio quadro que nos ensina “o que ver a seguir”. É matemático, doa por onde doer, pinte por onde pintar. Convido a que algumas perspectivas de Nadir Afonso, no que diz respeito à criação de uma obra de arte, sejam analisadas. Este flaviense mostra que não é apenas um pintor. È um pintor que reflecte sobre aquilo que faz, como o faz e porque o faz, algo que se revela perspicazmente saudável, em tempos em que um vulgar cozinheiro se pode tornar num baterista reconhecido em todo o mundo.
“Então, vamos?”, questiona. Já vou, já vou. Um último olhar e reparo que Nadir “ morará em Barcelos até ao próximo dia 29 de Junho. Bom proveito, pois a mim uma antiga e familiar cidade me espera lá Fora.



Jorge Marques

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O Poleiro Aconselha

Esta semana os Galos aconselham:

Cinema:
A Doce Vida, Federico Fellini (1960)
No Direction Home(2004), Martin Scorsese


Literatura:
P.S. Amo-te, Cecelia Ahern (2004)

Teatro:
"A lenda do Galo de Barcelos" pelo Teatro de Marionetas
Museu de Olaria, 13 Dom.
10h; 11h; 14.30h; 15.30h; 16.30h

Arte:

"Exposição de Pintura de Nadir Afonso"
Galeria Municipal de Arte - de 1 de Maio a 29 de Junho

Música:
Sounds Like Trouble (2008)
The Vicious Five

Coda

Enquanto Antoine Doinel ouvia Bach, e Simone de Beauvoir traía Sartre, eu acordava com uma dor de garganta. Vem a dança do amor mascarada de ponteiro do musical flagelo da morte, ocultada de valor intrínseco da verdade. Não interessa de qualquer forma: o poema nunca é o que o poeta quer que seja.
Sorriam para a fotografia porque a câmara é cybershot. E depois limpem as lentilhas porque na rua diz: Revolução. Passem por Coimbra e talvez encontrem o fantasma da manifestação estudantil. Enquanto isso provem os pastelinhos de Belém, e se a empregada de balcão vos queimar a canela, digam-lhe: “Adeus minha musa. Era de ti que fugiam os marinheiros. Os mesmos a quem tantas pragas o velho do Restelo rogou. E sobre quem Camões, enganadinho, coitadinho, tantas vezes escrever ousou”.
Mas deixem-se lá disso pois a festa aí está. Há sempre a estação de serviço e a paixão desolada. Tristes daqueles, solitários em sentimento, que encontram a solitude da inteligência. Após o que não há possível retorno: depois da tempestade vem o dilúvio. Noé construiu a arca, mas Kant pensou, e tudo acabou. Comeram muitas bolachas, porém ainda não descobriram que o “e” pode ser antecedido da vírgula. Desvantagem minha o estar a descobrir. Caso conseguisse, esquecer-me-ia do “e” depois da vírgula. Talvez não valha o esforço: a perestroika anda por aí... Lembro-me do que não era o ser e do que o existir não deve ser. Há uma volta que volta, ali e aqui, perto e distante. Assim sendo, o rio é venturoso e o mar é pavoroso.
Rimo, em fel e suor, tal como num espectáculo deplorável e assustador. Intragável. A felicidade desprovida de cérebro é deprimente, autoritária, sick. Por isso parem lá de aparecer online porque há já muito tempo que eu estou em another line.
Em suma: sejam felizes, e derrubem Barcelos: para quê conhecer a doença quando não há remédio? Levantem-se e batam palmas, porque o teatro ainda agora começou! Eh la oh!


Isabel Arantes

Gigue

III
Queria ir ao concerto. Queria que o tema deste texto fosse real, existisse. Mas que interessa? Nuns dias esqueço tudo. O cérebro humano é fascinante: permite esquecer o que não é importante. Vamos fingir:
Acordei às 7h. Era o segundo dia da viagem, suas razões já expliquei, e não me apetece dizer tudo de novo. Anyway, pus os pés a caminho e fui por esse mundo fora. Caminhei até me esquecer de como conjugar o verbo “andar”. Continuei e não parei. Fazia calor, e eu nada tinha, excepto a típica mochila às costas. Andei mais um pouco, cansei-me e andei mais um pouco.
Vi um mundo que não tinha visto até então. Vi casas em cima de nuvens, vi flores a crescer em pedra, vi uma cadeia de lojas a fechar, vi um buraco negro. Depois apareceu uma mulher idosa, com ar de vidente (sim, sim, aquelas com verrugas, mãos magras e finas, cabelo grisalho e voz rouca) que me disse que meu lugar não era ali. Eu fugi por entre sombras e nunca mais a vi.
Ao passar pela rua 33 do sítio X vi um homem a morrer de angústia: a sua vida tinha sido levada por uma cabra. Claro que logo de seguida a Maggie (como lhe chamavam) veio aos gritos dizer que a cabra não tinha como levar a vida de ninguém, porque a vida é impossível de esconder no bolso.
Continuei a caminhada. Perdi o meu ipod. Ai é verdade, eu não tenho ipod. Enfim, perdi o meu gira-discos ambulante. Estava a ouvir o Mr. Tambourine. Ele dizia-me que estava pronto para ir para qualquer sítio. Tudo o que eu pensava era em saber o que fazer. Ouvia agora Desolation Row. Mas estava, na realidade, a pensar na bomba atómica.
Andei e andei. Sinais de cansaço apareciam agora. Não quis mais continuar uma luta que não era a minha. Não mais consegui ler. Percebi finalmente que não tenho que pertencer a ninguém. Nem sequer a mim própria...
Logo a seguir entrei na toca do lobo. Mas que diabo: estava tudo pedrado. Não consegui falar com ninguém. Havia lá um miúdo muito jovem. Simplesmente lhe chamavam “Citizen K”. Despido de jovialidade. Tentei animá-lo e fazê-lo voltar a si, mas estava com demasiadas toxinas e elementos estranhos no sangue. Até que veio a mãe dele e me perguntou porque tinha drogado o seu filho. Eu disse-lhe que nunca o tinha visto antes, que apenas o tentara reanimar. Como é imaginável, a senhora não acreditou em mim. Estava furiosa. Partiu os meus discos e disse que Bob Dylan era música de Satanás. Desta feita quem ficou furiosa fui eu: chamei dois arruaceiros dos Hell’s Angels, acabadinhos de sair da “prisa”, ainda fumegavam e tudo, para lhe darem uma lição. Quando dei por mim já lá estava aquela miúda do telemóvel que, após ter batido na Prof. de inglês (porque nunca mais nenhum professor de francês se aproximou dela...) e assistido ao milésimo nono episódio daquela série, cujo nome não é digno de ser pronunciado neste local, resolveu juntar-se à festa.
Tudo o que eu agora queria era dormir. Ideais como liberdade, igualdade, (fraternidade), justiça social, viagem intelectual, não me passavam mais pela cabeça. Tudo o que eu queria era dormir. Dormir e não acordar neste século. Dormir. Simplesmente dormir. Deitar-me e adormecer. Depois disso restava o sono. Aquela coisa que se dorme.
Voltava então para casa quando começaram a chover Manifestos. Porcaria de mundo capitalista que vive obcecado com economias planificadas! Comentei com alguém o sucedido. Como resposta ouvi: “De que estás a falar?”. Mais uma vez me lembrei do que dizia Travis Bickle: “Loneliness has followed me my whole life. Everywhere. In bars, in cars, sidewalks, stores, everywhere. There's no escape. I'm God's lonely man...”
Mas que hei-de fazer agora? A liberdade foi embora e já não conheço mais a constituição do corpo humano. Ficarei no oceano até começar a afundar? Entretanto alguém voltou a atacar a minha imaginação. Let’s get stone...
Resta-me o sono eterno que anseio. Assim sendo, despeço-me de ti, Zimmerman dos pobres, como um cão se despede de seu dono antes de ser atropelado: com todo o respeito e gratidão.
Cansaço.

“You lose yourself, you reappear
You suddenly find you got nothing to fear
Alone you stand with nobody near
[…]
And if my thought-dreams could be seen
They'd probably put my head in a guillotine
But it's alright, Ma, its life, and life only.”

Bob Dylan, in Its Alright Ma (I’m only bleeding)


Zita Esquerda de Sá




(By the way se terminarem de ler estas 3 partes e continuarem a pensar que sou de esquerda radical aconselho-vos a irem à lojinha de conveniência aí do sítio e comprarem uma foice e um martelo.)

Passado do passado após o passado!


Passado do passado após o passado.

É muito fácil de concretizar: caminham até a Galeria de Arte, até o dia 27 de Abril, simpaticamente, esboçam um sorriso para a Senhora que costuma encontrar-se à entrada e voilá: B.D. do 25 de Abril e período “Quente” de 75 à vossa frente, gritando: “Analisa-me!”.
Esta mostra é um conjunto de trabalhos da época. Onde se encontram desde as mais reconhecidas imagens do pós 25 de Abril, até uma série de obras menos acessíveis ao grande público.
Para aqueles, mais jovens, e únicos a quem me atrevo tentar incentivar, esta é uma forma facilmente exequível de (re)visitar um panorama social e político que não o seu. Especialmente para aqueles que se sentem atraídos por ideologias mais à esquerda, ou pela história política portuguesa no geral, encontram nesta exposição uma perfeita base, nostálgica e interactiva, de adquirir mais conhecimentos.
De referir é a representação do lendário debate entre, os não menos lendários, Álvaro Cunhal e Mário Soares: “Olhe que não. Olhe que não”. De resto, está lá tudo: desde a madrugada de 24 para 25 de Abril, até as nacionalizações em massa, passando pela formação dos partidos políticos que hoje conhecemos.
Sugiro, humildemente, uma visita a este espaço, incentivo, não menos humildemente, a o fazerem ao som de Zeca Afonso.
Os primeiros anos da Democracia portuguesa são, sem duvida, páginas de orgulho nas, imensas, paginas da História de Portugal. E cabe a nós, jovens, não deixar desvanecer um passado que teima fugir.



“Cantai, cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora”

José Afonso


(Poderia ter sido...)
Mas não fiquem esperançosos: o 25 de Abril há muito que morreu!


Isabel Arantes

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O Poleiro Aconselha

Esta semana os galos aconselham:

Cinema:
Minha Mãe(2004), Christophe Honoré

Literatura:
Os Retornados, Júlio Magalhães (2008)

Teatro:
"Os Corcundas" com Breno e Claudia Moroni
Sab. 17 Maio 22.30h

Arte:
"Rosa Côta: Um vulto da Arte Popular"
a partir de dia 12 Maio

Música:
Concerto- Pé Na Terra
09 de Maio 22h
http://www.myspace.com/penaterra

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O Som do Nada

Por isso é que só ele ouviu, pelas tantas, tarde para quem se deita cedo, uma frágil música que entrava pelas frinchas da porta e do telhado, grande silêncio haveria nessa noite em Barcelos para que um simples violino, tocando na sala nobre da Câmara Municipal, com portas e janelas fechadas por causa do frio, e frio não estivesse, assim impunha a decência, pudesse ser ouvido por um velho que a idade ia ensurdecendo.
Velho esse que pelo facto de ouvir uma simples melodia rejuvenesce, virtude da Primavera quando começa a chegar-se aos braços do Verão. Tentando esquecer as sombras da rua, dos rostos daqueles que, tal como ele, são filhos do nada. Esquece e aquece ouvindo o som do violino.
Quando a vida é um nada e o nada já não tem vida, tudo, até o chão que altos e emproados senhores pisam, se torna familiar.
Estendendo a mão, só pede que alguém a aperte para que não se sinta tão só, mas este povo que nada entende, oferece uma simples moeda que nada poderá comprar, pelo menos nada que o velho necessite de verdade.
Pobre velho, no meio de tanta gente, sentindo-se tão só… Procura no fundo do seu poço alguma lembrança que lhe aqueça o coração e a única que encontra é o som daquele violino, numa noite…


Heika Castro

Sean Riley & Slowriders - O Concerto

Na passada sexta-feira o Subscuta presenteou, mais uma vez, os barcelenses com um bom concerto, protagonizado por excelentes intérpretes: Sean Riley e os “seus” Slowriders.
Os habituais atrasos, para apimentar a expectativa. As também habituais conversas de ocasião, trocadas e repetidas, enquanto se espera pelo real objectivo da noite.
Enche-se então o Auditório da Biblioteca Municipal. Desde jovens adultos, adolescentes, a pessoal que, nota-se, apesar de aparentemente ultrapassados pela música actual, estão sedosos de reviver um passado não tão longínquo quanto poderá parecer. Ou viver um presente que não é só de uma geração, é de cada um que o quiser abraçar.
Começam então os artistas a apresentar-se. Estranha-se, num primeiro instante, a falta de alguém: “então eles não são três???”. Ok, eles são três, mas cá estão apenas dois! Ouvem-se murmúrios (alguma inquietação) que se desvanecem, momentaneamente: um dos elementos não veio. A bateria não irá eclodir em baques e estridentes sons, hoje não.
“Those Red Days” faz com que toda a inquietação e embaraço que se faziam sentir desaparecessem. Ok de novo, é acústica, mas o baixo dá para compensar, e de que maneira!
Música, melodias e sons, ornamentados por diversos e caricatos instrumentos se vão sucedendo, desde uma melódica e uma harmónica, a umas “espécies” de quadro e lápis, mais parecendo um instrumento roubado a uma criança, na véspera. Maravilha! Cada pessoa presente acompanha o ritmo do batuque, ou com o pé, ou “dedilhando” em cima do próprio joelho, não esquecendo aqueles que daquele sítio ou daquele momento, apenas sabem o que ouvem, de resto, navegam por outros locais, outros momentos. Pela Residencial Arantes, quem sabe? O Sean Riley também esteve lá!
Deixarei os pormenores mais técnicos para quem tem mais e melhores conhecimentos acerca dessa “matéria”. Mas uma coisa não me podem negar, a qualidade destes senhores vindos de Coimbra! Embrulhado pelos mais calorosos e reconfortantes efeitos visuais, senti que estava a assistir a um dos melhores concertos a que já assisti, e não é “conversa fiada”, tal como disse Sean (ou Afonso, Filipe, Domingues, Marta, não é por aí).
Agora que se aproxima a época mais importante para Barcelos, Sean Riley & Slowriders foram uma boa “lufada de ar fresco” para aqueles que não têm cinquenta ou sessenta (Paco Bandeira), quarenta (Luís Represas), e os que não têm, até, uns cinco ou vinte cinco anos de idade (Anjos). Mais ano, menos ano.

E lá dizia Sean Riley: “A foda é o falsete”…


Jorge Marques

Carta

Pela última vez falarei, ou escreverei, ou sequer pensarei sobre o assunto que explorarei nos próximos parágrafos. Chamem-lhe uma despedida. Chamem-lhe recomeço.
Despeço-me em breves palavras de meses da minha ainda curta vida. E tudo aquilo que penso ou crio não tem valor ou utilidade a alguém que não eu. As minhas viagens cognitivas trazem prazer, unicamente, a mim. Agradeço o bilhete de ida e volta. Todas as descobertas e procuras. A descoberta da humanidade que não sabia possuir. Mais que os protestos, mais que todas as glórias, foram os momentos simbólicos e mitológicos em que mergulhei. Parto sem peso na consciência. As máscaras foram retiradas e agora mais não tenho que recear. Nada de mim está escondido. Consigo ver para além do meu cérebro, para além do meu ser. Longe estava e voltei.
Alegria e revolta. Consonância difícil e perigosa: saudável. Os tempos andaram e tudo foi enterrado no fundo do mais profundo oceano. O barco veio e quis ser ele próprio. A escolha não foi minha. Fiquei pela metade: um dia eras o expoente, noutro já não existias.
Tal como te despediste de Woody Guthrie eu me despeço de ti. Porém sem o brilhantismo das tuas palavras. Apenas com a humildade dos meus pensamentos e o egocentrismo da minha liberdade. Encontrar-te-ei um dia quando a minha realidade não for mais Freewheelin’. Nesse dia voltaremos a ver-nos como velhos amigos. Contaremos velhas histórias, recordações e piadas familiares. Dores antigas não mais serão tristeza. De tudo não restarão acordes menores.
Despeço-me onde tudo começou: Sara.



Zita Esquerda de Sá.

Os Galos Aconselham

Esta semana os galos aconselham:


Cinema:
Beijos Roubados (1968), François Truffaut

Literatura:
Fernando Pessoa: Obra Poética - Volume Único (2005), Fernando Pessoa

Arte:
Exposição Cerâmica Comtemporânea "un pont de mar"
(Museu de Olaria de Barcelos) 19 de Março a 05 de Maio

Música:
In Rainbows (2008)
Radiohead

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Lembra-se de Glenn Jones?

Glenn Jones é um nome que merece uma memória. Todos nós devíamos ter alguma imagem narrada por uma banda sonora colorida, uma que nos lembrasse (a todos aqueles que gostam de viver com todos os sentidos) a experiência simples de ouvir uma história sem texto. Eu fui um dos sortudos que conseguiu uma memória, não a posso vender, posso apenas descrevê-la, mas não ficará muito perto da realidade:

Barcelos, 15 de Março de 2008, Salão Nobre da Câmara Municipal, noite escura. Glenn Jones era o homem de que se falava, “o tal americano” que, como tantos outros, vinha para vender música. Após um pouco de espera, o salão encolheu, um homem ficou grande e as suas músicas pequenas em falso orgulho. De forma íntima foi como tudo se passou, mas apenas no início, porque logo se transformou em pessoal.

Doze cordas de uma guitarra (que não podia ser mais dedilhada) podiam-se contar, e músicas surgiam como se uma idade média ainda não tivesse acabado e uma grande imaginação se mostrasse ao público. Pausas para falar com os ouvintes, que naquele momento já se sentiam amigos de longa data e tempo para explicar que a inspiração veio de fontes tão diversas como um casamento ou um livro. Seis cordas diferentes deslizaram e trouxeram um “blues orgânico”. Um banjo fez uma intervenção pequena, como a sua própria altura, mas nem por isso menos elaborada. O local tornou-se perfeito, o eco tornava naquele instante um acontecimento num sonho. As afinações não mentiam, e da mesma forma que o mestre as mandava serem gentis e dóceis, derretendo-se ao toque, ordenava que se tornassem agressivas e profundas, até sombrias. No momento em que pensávamos que a surpresa já não era possível, saímos de um Salão Nobre e viajámos para o interior de uma fábrica de cimento. Ao comando do tímido génio das histórias sonoras e guitarras domadas, obedecemos, fizemos com que os pequenos aparelhos que nos ajudam a comunicar se tornassem objectos de arte. A dissonância de sons elevou-se e todos ficaram cientes que a magia não existe, mas existem experiências mais fortes que o imaginário.

Só lamento que a minha memória não tenha sido repetida em todos os presentes. Nem todos conseguimos não ter medo do que não conhecemos, mas há lugar para todos. Todos podem ter uma memória com Glenn Jones.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A Europa morreu...

Rufando neste meu sonho impune possa eu esperar, acordar o teu indignado coração, tão velho, porém tudo neste mundo se equilibra e compensa, como já foi verificado.
Que rugas são essas tão profundas que fazes transparecer e que mesmo usando essas máscaras nem o sol consegues esconder?
Eras tão jovem, bela e ingénua que numa só palavra te descreveria como a “verde Europa”, fazes feliz a quem por ti dá tudo, quem sabe a vida. Crianças, jovens e velhos lutam do teu lado para que sejas a maior, tu ó “nostra terra”.
Mas, de verde passaste a azul e nem num piscar de olhos viraste cinzenta. Tão cinzenta como a cor das cinzas daqueles corpos que por ti passaram e que tu por seres tão cruel…simples pó se tornaram.
Porquê Europa? Porque mandaste que me ligassem a anunciar a tua morte quando já sabias que de ti já nada restava há décadas?
Se soubesses o quanto chorei para que tudo isto não passasse de um sonho…!

Catarina Cachada

Os Galos Aconselham

Esta semana os galos aconselham:

Cinema:
A Máscara (1966), Ingmar Bergman

Literatura:
Hell's Angells (1965), Hunter Thompson


Arte:
“O 25 de Abril e a BD – uma revolução desenhada”
(Galeria de Arte de Barcelos) 4 a 27 de Abril


Música:
Farewell
Sean Riley & The Slowriders

'Tamos in

Involuntariamente premi Pausa. Ouvi: “Morrerei em paz: está tudo pago!”. Comecei a imaginar como seria morrer sem saber o que é contrair dívidas (não necessariamente financeiras). Imaginei um moribundo a tentar ultrapassar os últimos minutos, sem continuidade e perto do fim. Não me pareceu muito mau morrer. Talvez quando morrer me entretenha a sonhar como teria sido a minha vida se não tivesse especulado acerca da minha morte, como teria sido se tivesse entrado no autocarro errado e, em vez de Barcelos, tivesse almoçado noutro local. Algures. Não aqui.
Ainda no rescaldo de uma overdose de Bob Dylan, e depois de umas seis horas desde que Sean Riley & the Slowriders actuaram no Auditório da Biblioteca: Harry Rivers ainda não me saiu da cabeça. De qualquer forma, encontrei os The Birds. Cantaram para mim. Convidaram-me a passar pelos 60’s, beber um café e conversar sobre política. Mas não fui: o passe perdeu a validade. Em vez disso, preferi passear, sob a chuva, pelo século XXI ali no InCima Café.
Depois do meu habitual copo de leite com café, desci a rua da Estação, em direcção ao Paraíso. Paraíso. Perdão: Paraíso! Gritos se ouviam down the street. Era o Humphrey Bogard a discutir com um chinês. Encontrei uma conhecida que me contou a história: aparentemente Bogard tinha lá comprado um verniz das unhas para a Lauren Bacall. Desde então Bacall nunca mais tinha tido um orgasmo: agora Bogard queria satisfações. O chinês disse que não era responsabilidade dele, porque, na verdade, o verniz era “Made in Tailândia”, apesar de lá dizer “Made in China”... Pela primeira vez ouvi alguém praguejar em mandarim.
Ontem à noite, antes de ir ao concerto, li o mail que o Paulo Furtado me mandou a confessar que não aguenta mais ouvir Wraygunn, e que o sonho dele era filmar um vídeo para a Mtv inspirado no Like a Virgin. Comentei o facto com a senhora do Top Gun (por sinal o melhor clube de vídeo de Barcelos!) e ela respondeu-me: “Deixe lá, Isabel, neste mundo tudo é possível: imagine só que até o Marcello Mastroianni foi cliente do fisioterapeuta do prédio atrás do Camilo!”. Eu disse-lhe que o meu nome não era Isabel, mas sim Zita. Ela retorquiu: “Mais tarde ou mais cedo descobrirás que nada mudou.”
Sinistro.
Faltam poucos dias para a viagem, porém, não quero ir. Sem esperanças vagueio pelas ruas molhadas da cidade do Poleiro.

Afoguei o Manifesto.



Zita Esquerda de Sá

Sarabande

II
Deixei de pensar. Não há muito mais a pensar. Afinal de contas a Esquerda morreu. Vá lá: isto não é música para os vossos ouvidos. Like a song (“Hey! Mr. Tambourine Man play a song for me. I’m not sleepy and there is no place I’m going to”): ouço e esqueço. Porque tenho que me deslumbrar com ideias passadas, ou com a Beat Generation? Por muito que se tente o contrário, o livro terá sempre mais valor que as suas citações mais célebres.
Pedi ajuda a Deus. Um deus qualquer; encontrei a sua morada num papel rasgado, que voou até mim, ali perto da igreja matriz. Ele disse-me para aguardar pela minha vez na sala de espera. Quando finalmente se mostrou disponível, simplesmente me sussurrou que a revolução deveria ser feita na consciência e não na rua. Aconselhou-me a aprender inglês e viajar com os
Hell´s Angels.
How many roads afinal? Hei-de desfilar os meus sonhos, em marchas e protestos, na Times Square, e nas avenidas de Washington. Ou talvez fique mesmo aqui pela Rua Direita. Caminharei ao som de hinos americanos acerca da igualdade do Homem, caminharei ao som de canções que já ninguém canta. Rejubilarei a liberdade que a morte dos meus ideais comunistas me deu.
I’ll be free at last, thank God almighty, I’ll be free at last.
Claro que algo acontecerá: não seria crescer se algo não acontecesse. Entretanto a chuva cai e faz sol: “Shit... I’m waiting for the sun to shine”. A chuva vai cair, será dura e esperançosa. Andarei por entre vales e florestas. Passarei por oceanos mortos, será como um poema paranóico, frio e pedrado. Excitante! Mas facilmente esquecível...
Convido-vos agora a não serem idealistas, convido-vos a não misturarem a sensibilidade da vossa juventude com o zelo da futura idade. Crenças e mais crenças. Acaba um dia. Tal como as conversas nas estações só duram até o comboio chegar.
Sim, eu sei. Todos aqueles que sonharam um dia ser personagens de um road movie acabarão velhos, e distantes: encaixados, e conectados com a temática de um filme de Ingmar Bergman. Verão à vossa frente relógios sem ponteiros e relíquias do princípio do século XVI. Passarão a adorar as vossas glórias passadas e o tempo fluirá. Dirão com prazer que o vosso ídolo de juventude era o Álvaro Cunhal, mas nunca leram o Manifesto. Esperarão, secretamente, uma revolução que nunca chegou. E para quê? A tal viagem nunca foi feita, e tudo o que viram foi a doçura da ignorância. Sentir-se-ão frustrados pelo tempo perdido em maquilhagem, e em leituras da Vogue. Perderão todos os vossos objectos míticos, ou nostálgicos: o formato digital passará de moda, e vossos descendentes não darão valor ao disco rígido do vosso coração. Haverá poetas que ressuscitarão. Serão os novos Camões, os Pessoas, os Ginsbergs descobertos e revisitados. Mesmo assim, os velhos deixarão de ser velhos pois não mais existirão rugas. Não mais serão estes os governantes: serão destituídos de seus cargos quando o primeiro cabelo ficar branco, quando a barba não mais crescer escura.
“There’s no black and white, left and right to me anymore. There’s only up and down, and down is very close to the ground. And I´m trying to go up without thinking about anything trivial, such as politics”. Porque me tenho que sujeitar a uma descoberta que não foi minha; Porque necessitam de categorizar? Respondo-vos hoje, com a sinceridade da minha adolescência não juvenil, que não o farei: Não tomarei um ou outro caminho. Caminharei onde não há estrada. Construirei a minha rua à medida que avanço.
Não me importo que falem no termo outsider. Tenho orgulho até. Por isso, se quiserem fazer a vossa viagem, vão. Aqui a “non-insider” vai só...

“The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars...”
-Jack Kerouac

Zita Esquerda de Sá

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Caros barcelenses, tenho a honra de vos trazer mais uma boa quantidade de notícias do nosso tão amado concelho. Estou aqui, de novo, perante vós, para vos alertar, em “primeira-mão”, para algo que está para acontecer em Barcelos. Algo tão importante que ficará para sempre escrito nos manuais de História de Portugal dos nossos netos, bisnetos...
Tenho o prazer de vos anunciar, caros barcelenses, que Barcelos organizará o “Festival de Jazz & Blues” no ano 2061. Sim, leu bem!
O POLEIRO foi alertado para este evento bombástico pela própria Sra. Secretária da vereadora da Cultura do concelho de Barcelos. “Foi uma decisão difícil. Tínhamos várias hipóteses em cima da mesa, desde a realização do 80º Festival do Acordeão Diatónico (instrumento popularmente designado por concertina), acolhendo alguns exemplares deste instrumento, provenientes de vários países (mas tocados por portugueses), um Festival de Folclore e, até, um desfile de fardas oficiais da Mocidade Portuguesa”, informou a Sra. Secretária. Após perguntarmos quais tinham sido, então, os critérios que levaram à escolha do “Festival de Jazz & Blues” como o melhor evento a realizar em Barcelos, a Sra. Secretária da vereadora da Cultura respondeu, com a mesma delicadeza, que “Os Festivais do Acordeão Diatónico e de Folclore tinham sido colocados de parte, após vários estudos que prevêem uma inexistência de tocadores de concertina e de dançarinos de folclore no ano 2061”.
(Perante esta dolorosa afirmação, O POLEIRO contactou de imediato o consultório da famosa taróloga e bolicóloga (Bollicaologia é a arte de prever o futuro nos cromos do Bollicao), Maya. “Em 2061 existirão doze tocadores de concertina que, em simultâneo, dançarão folclore. Destes doze, dez serão barcelenses!”, afirma, com convicção, Maya. “Ah! Por sua vez, desses dez barcelenses, nove só poderão dar concertos no Auditório S. Bento Menni, o mais próximo da casa dos artistas”, continua.)
Entretanto, a Sra. Secretária finalizou a sua explicação: “Por fim, a organização do desfile de fardas oficiais da Mocidade Portuguesa está inviabilizada desde que a Câmara Municipal de Barcelos ofereceu todas as fardas a uma organização de caridade que recolhe vestuário para os habitantes do Zimbabué, que vivem numa crise social e económica que se agrava a cada dia que passa”. Perante este nobre acto, o actual Presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, já elogiou publicamente o concelho de Barcelos!
Mas não são apenas estas as boas novas que tenho para vos contar! Não, Barcelos revela-se um concelho com impressionante poder de organização de eventos. Assim, relembro-vos que, caros barcelenses, está a chegar a época mais importante para a nossa terra e, claro está, para todos nós: a Festa das Cruzes! O POLEIRO destaca, de entre os demais eventos a realizar no âmbito desta grande festa barcelense, a realização do tão esperado concurso “Quem Quer Ser o Terceiro Elemento dos Anjos?”, no dia 3 de Maio, Feriado Municipal. Para este concurso estão já inscritos nomes como Luís Represas, Paco Bandeira, João Pedro Pais, entre outros. De fora deste concurso estão já confirmados, com muita pena nossa, o grande músico Avô Cantigas e um Rotweiler, cuja “potente” voz foi mais uma das grandes descobertas que o Youtube nos proporcionou. Este Rotweiler não poderá estar presente devido a conflitos entre a sua raça e alguns Ministros do Governo Português.
Por fim, informo-vos de que o projecto da nova ponte Barcelos-Barcelinhos avança a passos largos para a sua conclusão, o que deixará satisfeitos, certamente, todos os cidadãos que têm de enfrentar enormes filas de trânsito na “Ponte Velha”, às Quartas e Sextas à noite, sempre que se aproxima a hora de início de mais um evento organizado pelo Zoom ou pelo Subscuta.
Menciono, também, o adiamento da inauguração do Teatro Municipal Gil Vicente devido a problemas de carácter “técnico-emotivos”, devido à cor do edifício que, nas palavras do nosso querido Zé da Esquina: “É uma afronta ao nosso coração barcelense. Edifício amarelo em Barcelos é apenas um, o edifício da Casa de S. João de Deus e mais nenhum! Queremos um teatro que dê a imagem de uma cidade de Barcelos vincadamente afecta a eventos culturais de alto prestígio e qualidade. Esta teoria foi já defendida pelo meu avô e eu, em honra deste meu familiar tão querido – Deus o tenha em eterno descanso! –, continuo a lutar contra a inauguração do teatro, enquanto a sua cor for amarela!”, afirma peremptoriamente esta incontornável figura barcelense.

Voltarei,

Agripa

Solidarização do Egocêntrico

Revejo-me no espelho, uma vez. Apenas uma vez até descobrir, desolar, solidificar e dizimar o que ouço lá no fundo da audiência teatral gritar. “Faz. FAZ!”, ouço-os dizer num murmúrio ensurdecedor. O personagem ao meu lado declama: “Estarás aqui amanhã, mas os teus sonhos não. Não o faças”. Convincente, quase irrefutável.
Essa falsa inocência deixa-me com febre de soltar as palavras, os meus lábios mexem mas não consigo ouvir as palavras que se formam. De repente, todos os holofotes se centram no espelho que reflecte aquilo que eu deveria ser.
Lentamente, abandono o palco, a luz reflectida pelo espelho persegue-me, ofusca os demais aqui presentes. Alguém transporta o espelho, que ainda reflecte a minha imagem, para o centro do palco.
Continuo, sem o menor ruído, abandonando o espaço. Do meu lado algo avisa “PROIBIDO fumar”. Um impulso, só preciso de mais um impulso para alcançar essa porta de ferro. Parece entreaberta! No chão um painel publicitário que anuncia “Coming Soon”, mais à frente o interruptor. Apresenta-se off.
Uma mão suave me agarra, de ancestral toque e subtileza, que apenas permite a percepção de sua presença através do odor pleno de êxtase liliáceo que liberta. Pormenor? Pontas pavorosamente massacradas pelo acaso. Esta mão tem tão grande poder que nem toda a força conhecida a separaria do meu braço amedrontado, que segura.
“Pensas que consegues trocar um sofá confortável por mudança?”
O aperto suaviza e alcanço a porta. Vejo-me rodeado por nada, um nada pronto a ser colorido, tal como a última página de um caderno que espera incessantemente que algo em si seja escrito, desenhado, riscado.
Click, a porta fecha. Caminho e as minhas pegadas ficam marcadas no nada. Não sinto, não vejo, não ouço, não cheiro, nada saboreio de tanto nada em que me perco, me infiltro, que serei dentro de breves momentos…!
Um toque suave, a percepção. Ruídos de lábios que chocam, e se reproduzem formando palavras. Um odor, o êxtase! A luz, a sombra, a cor, tudo se forma.
A mão. Essa mão, companheira de ilusões e de fantasias ao longo de toda a realidade.
“Estaremos alguma vez preparados para mais uma página? E para a última página?”, ouço.

“Não te esqueças: já estás a manusear A Página”.


Joana de Neves

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Rumos

Muita vontade tenho de partir e não mais voltar. Ir e não regressar. Começar algures noutro local. Rumar um sítio inexistente aqui. Partir no silêncio da noite, na descrição do escuro, no vácuo prometedor do agnosticismo. Sem tudo e com nada. Partir e não mais voltar.
Encontrar a liberdade que não sei existir. Romper os horizontes longínquos. Além-mar viver. Percorrer o mapa da esperança, e depois, voltar, e continuar logo a seguir. Não mais ter saudade. Não mais sentir o cinzento das ruas portuguesas, nem o peso da herança de um país que navega contra o vento da mudança.
Só, irei, partirei e não voltarei. Percorrerei a noite da luz. Serei livre e inconsciente, sem o peso da melancolia do passado. Sem folar. Correrei e sentirei. Não mais me lembrarei das ruas cinzentas do meu país. Não mais o vento marítimo português me tocará. Não sentirei saudade.
Vontade enorme de partir. Meu orgulho, herança antepassada, e pesada, morrerá. Minha alma estará vazia ao esquecer tudo o que não é meu, mas entranhado está. Irei para longe, não mais te verei...
Ó Portugal, minha casa, perdoa: a negação que faço ao que de teu há em mim; o disfarce da melancolia fadista e a cinza de minha alma. Arrepender-me-ei de omitir os acordes da tua guitarra, e de amaldiçoar tuas cidades à beira mar. Não voltarei a ignorar a tristeza das ruas e vielas vazias do interior, nem o provincianismo do litoral. Em dias tristes e opulentos viverei até teu perdão alcançar. Porém, antes, terei de partir. Liberta-me e voltarei.


Isabel Arantes

Otto & Mezzo


Ora vamos lá contar uma história. O Marcello chega à beira do Federico e diz-lhe: “Tão pá? Vamos fazer um filme?”. Federico responde: “ ’Bora pá, mas estou sem ideias”. Marcello desiludido questiona: “Mas pá, e então aquele pedacito que sobrou no outro dia?”. Ao que Federico responde: “Pá, pois é...! Mas o pior é arranjar um título”. Marcello resolve a situação dizendo: “Ouve lá, já fizeste oito filmes, e tens metade de filmagens sem rumo, não me parece tão difícil assim: 8 ½, pá!”.
Wait a minute, um filme chamado 8 ½ (Otto e Mezzo)? Isto não vai dar certo...
O filme começa. Ouve-se lá ao fundo um som. Carros alinhados e um autocarro. Marcello olha para idosos ao seu lado esquerdo. Subitamente o ar condicionado sufoca-o. Tenta, desesperadamente, abrir a porta. Não abre. Porra ajudem-no! Ninguém ajuda, e ele continua, mas ninguém ajuda, tudo olha, ninguém vê. Até que ele sai e voa. Aí vem o mundo felliniano montado num cavalo. “Desce, definitivamente”. Marcello acorda.
“Que está a preparar de interessante? Mais um filme sem esperança?”. Não, não, alto lá: o que mais há aqui é esperança, não fosse este um filme sobre um realizador de cinema com uma depressão e obcecado por uma deusa, chamada Cláudia Cardinale. Pode não haver luz ou esperança, porém Cláudia entra em cena e tudo pára. Nem a banda sonora de Nino Rotta se impõe. Não! Esta é Cardinale, a Cláudia das formas perfeitas.
O Filme continua...
Mastroianni diz a Fellini: “Eu deveria era a estar a fazer filmes com a Sophia e com o De Sica, não estas tuas fascinações pela irrealidade. És louco e eu sou pior que tu”. Fellini faz-lhe a vontade e intelectualiza o texto...
Comunismo está lá. Pois claro. Está sempre, não se pode fazer um filme sem a componente socialista. Até porque fica bem dizer: “O marxismo é uma boa teoria. Mas na prática...”. Como tal perguntam a Marcello (sim, volta a ser Marcello) quais as relações entre o catolicismo e o marxismo. Ao que Mastroianni (não, já não é Marcello) responde: “Quer saber a que partido político pertenço?”. Obviamente que Fellini foge à questão... Ainda não vos contei? Marcello é Mastroianni e Mastroianni é Federico, este por sua vez é Fellini.
E para quem ainda não tinha percebido que está a ver Fellini então suas dúvidas deixam de fazer sentido 50 minutos após o início do mesmo. Aí vem a típica dança, sexual e propícia a orgasmos inesperados. Pode ser igualmente mote para sentir a nostalgia da infância perdida...
“No meu filme acontece de tudo”. Por isso há quem substitua cinema pela vida. Pois nesta não há oportunidade de perguntar: “Senhor realizador, o que faço?”. Porém, não é no cinema que aprendemos a fazer “um filme honesto, sem nenhum tipo de mentiras” pois o cinema existe na vida, e a vida não passa de um cinema: irreal. O sonho do autor é frustrante: o filme “que pudesse ser um pouco útil a todos; que ajudasse a enterrar para sempre o que de morto levamos dentro de nós”. Não é possível, porque nem o próprio é capaz de enterrar o que quer que seja.
Cláudia volta: “Lindíssima. Jovem e antiga. Criança, mas já mulher. Autêntica, solar. É ela, sem dúvida, a salvação”. Cláudia percebe que o papel que lhe é reservado no filme não existe. Tem toda a razão, de facto não existe o papel. Nem sequer existe o filme. Não existe nada. Em lado algum. Mastroianni só quer que tudo acabe...
Resta o fim. Eles rodeiam-no. Fugir que nem um romântico incurável é a solução:
“O que é esse clarão de felicidade que me faz estremecer e me força, vida. Peço-vos desculpa, doces criaturas, não tinha percebido. Como é justo aceitar-vos, amar-vos. Como é simples. Sinto-me como liberto. Tudo me parece bom. Tudo tem um sentido, é verdade. Gostaria de explicar. Mas não consigo... Voltou a ser como era. De novo confuso. Mas esta confusão sou eu! Sou como não queria ser e isso já não me assusta. Dizer a verdade, o que não sei, no que acredito, o que ainda não encontrei. A vida é uma festa! Vivemo-la juntos!”. Circo.

Porreiro, pá!




Isabel Arantes

Os Galos Aconselham

Esta semana os galos aconselham:

Cinema:
Control(2007),Anton Corbijn


Literatura:
O Memorial do Convento(1982), José Saramago

Arte:
Exposição de Pintura "Duas Mãos, Um Sentimento"
(Sala Gótica dos Paços do Concelho) 7 a 18 de Abril

Música:
Neon Bible(2007)
Arcade Fire


O Compulsivo Devorador de Vidros

Percorre desassossegadamente a deserta rua, embrulhado nos mais longínquos e obscuros pensamentos. Benjamim mostra-se absorto de tudo o que o rodeia. Tudo isto que, afinal, nada é! Dezenas de pessoas o rodeiam.
Milhares de vozes o rodeiam, porém, nada lhe parece ser Português. O Português que, por vezes, encontra numa noite de insónia, num (não) qualquer canal, ou no canto inferior esquerdo da última página de um jornal abandonado. Mesmo por cima deste jornal, havia um cartaz que anunciava “Nova Exposição de Olaria em Barcelos, não perca! De 18 de Janeiro a 14 de Fevereiro”.
“Porque não me falas, maldito jornal?!”, pergunta Benjamim.
“Ei, rapaz! Sim, tu! Podes dizer-me o que podemos fazer enquanto O Autocarro não chega?”, pergunta um idoso que estava acompanhado por mais cinco pessoas com, sensivelmente, a mesma idade. Benjamim limita-se a apontar o cartaz. Sim, o mesmo cartaz. Não. Não! Não é o mesmo cartaz que vira. Este anuncia: “Nova Exposição de Olaria em Barcelos, não perca! De 20 de Fevereiro a 15 de Março”
Benjamim prossegue na sua caminhada. Não observa, portanto, O Episódio: segundos depois de os idosos acabarem de ler o cartaz e abandonarem o local, sorrindo satisfeitos, uma criança vê o cartaz, lê-o com atenção, observa-o. Num gesto brusco, arranca o cartaz da parede e, com um gesto mecânico (como se de um Hábito se tratasse), coloca no chão a folha imprestável que tem nas mãos.
Benjamim senta-se, sonolento…

Aprecia, finalmente, o que o rodeia. Ruas inundadas de pessoas que, a passos largos, se deslocam na mesma direcção: Oeste. A mesma direcção em que, segundo o “Boletim Meteorológico, sopraria o vento em Portugal.
Mas, algo desperta ainda mais a atenção de Benjamim! Uma criança que, de mochila às costas, filme de Fellini na mão e olhar de ligeira loucura, fixava algo à sua frente (algo que Benjamim conseguiu identificar). A criança deslocava-se, precisamente, no sentido oposto ao de todos os outros. O olhar da criança cruza-se com o de Benjamim.
Ambos vêem algo a esvoaçar, como uma ave perdida (esquecida?). Consegue ler-se no panfleto esvoaçante “Sean Riley & The Slowriders em Barcelos – dia 18 de Abril”.

Benjamim levanta-se de um sobressalto. É um interminável fim de tarde em que o sol já não brilha. Talvez no Porto, ou Lisboa! Em Barcelos não.
Procura o chão. E, de novo, Benjamim se acomoda no banco, percorrido por uma desconfiada alegria, como se milhares de vidros no seu estômago tivessem sido (por breves momentos) reduzidos a pó. No chão, encontrava-se apenas um cartaz onde nada se conseguia ler: alguma ave dispusera, por cima do jornal, uma quantidade significativa de excrementos.
Ilustres Excrementos de Ave




Bernardes

Prelude

I
“And I’ll tell it, and think it, and speak it, and breathe it, and reflect from the mountain so all souls can see it. Then I’ll stand on the ocean until I start sinkin’. But I’ll know my song well before I start singin’.”
-Bob Dylan, in Hard Rain’s Gonna fall”

Nós sabemos que drogas são más, sexo é mau, rock n’ roll já não é moda e para quem ainda não tenha percebido: o Andy Warhol já morreu. Ouço línguas e a chuva continua a cair. Da mesma forma que caiu antes. Continuo a andar em estradas sem sinalização, em oceanos sem água. É cansativa a continuidade.
Mas continuo. É uma odisseia de descoberta. Estou indo para casa, ainda não a encontrei, estou indo para lá apesar de tudo. Penso que a deixei um dia. E agora vou ao encontro dela outra vez. Não tenho quaisquer ambições: estou indo apenas ao meu encontro.
Afastadas as possibilidades extremistas. Afastados os perigos da paragem no tempo, vivo num gira-discos, sou quem não sou: obviamente gosto da ideia. Não se encontram no mapa as ruas da revolução. O sustento advém depois. Claro que neste espectáculo não se cria nada para além de tecnologia; e mesmo essa não é criada, é desenvolvida.
Penso na música americana do século XX. Música popular lá está. Aquela que falava do que mais ninguém falava. A música dos negros: Jazz! Folk Music! Blues! Depois há música dos que viam filmes do Nicholas Ray e comiam gelados em “drives in”. Aparece o Rock n’ roll! E Brando, e a moto, e Dean, e todos os rebeldes. E a paranóia. Vai tudo explodir. Virá numa nuvem e destruirá o espaço.
Ah! Como tudo isso me encanta! Tecnicholor, clima de guerra-fria, cinema Noir, crimes por resolver na Hollywood dos 50’s, estrelas de cinema com sorriso bonito e mente conturbada, escândalos políticos, assassinatos, grandes discursos na televisão, cidades cheias de cor e vivacidade que a nova moda trouxe consigo, corrupção no FBI, corrupção na CIA, revoltas na rua, estudantes furiosos, Elvis a engordar, América. Mundo. Europa. “To the moon”, gritam! Marlon Brando com a manteiga (nós sabemos onde), artistas loucos, pessoas loucas, mudança, mudança, fogo, fogo, fogo!
Em suma, se queres fazer a tua arte vai passear o cão. Porque de repente serás livre. Não terás mais a tua mente a preencher-te a mente. Não precisas escrever se não quiseres. Na verdade, se quiseres, não precisarás de fazer nada!


Zita Esquerda de Sá

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Última Página

Abri a janela e nevava lá fora. Fiquei ali a contemplar aquela maravilha natural.
Não sei por quanto tempo ali estive, especada, diante da janela. Só sei que a cada floco de neve que caía sentia mais a falta dele, do Arthur.
Sem conseguir suportar aquela lembrança, uma lágrima começou a percorrer a minha face, talvez procurando um caminho por onde seguir, um caminho, algo que eu talvez não tenha feito mais após a morte de Arthur.
Fui até à gaveta do armário onde Arthur guardava a sua colecção de pedras, pedras essas que continham um grande valor para ele – cada uma tinha sido encontrada num dos países que ele visitara. O Arthur era um grande viajante, adorava conhecer novas culturas, novos mundos, pessoas de raças diferentes.
Quando nos conhecemos, o Arthur confessou-me que todos os dias contemplava as suas pedras como quem procura algo. Tomei esta confissão como se fosse uma borboleta que pousara na minha mão por acaso: um acontecimento que era impossível prestar-lhe atenção sem arriscar perdê-lo.
Em vez de trocarmos números ou moradas, como todos os casais, ele deu-me uma das suas pedras e disse-me que não me preocupasse, porque em breve aquela pedra iria querer voltar para casa e aí nos voltaríamos a encontrar. Confesso que não acreditei muito no que ele disse. Fiquei muito triste, pois aquilo só poderia ter sido um pretexto para nunca mais nos vermos.
Passaram-se algumas semanas e eu não conseguia esquecer o Arthur, fechava os olhos e lá aparecia ele com o seu sorriso radioso como um sol de Verão; os olhos tinham um azul-vivo de um céu de Inverno; os cabelos tinham um tom de Outono.
Já não acreditava que algum dia pudesse voltar a vê-lo, a cada dia que passava sentia mais a sua falta, estava apaixonada, mas ele não sentia o mesmo por mim, certamente.
Numa manhã de sol, quando abri a porta para ir dar a minha corrida matinal, encontrei em cima da mesa de jardim, num livro aberto, uma rosa vermelha de caule longo, a marcar o seu lugar.
A página marcada falava de uma rapariga que era muito triste e infeliz, mas quando começava a ler esquecia-se da sua própria história e vivia a do livro. Ela fechava os olhos e imaginava-se em cima de um rochedo enorme, de braços abertos, e de repente a voar por cima do mar, onde a lua se fazia reflectir, e sobre as montanhas que se erguiam umas após outras, assentando depois numa cidade misteriosa em que tudo era feliz, onde até os pássaros cantavam num tom mais alegre.
Fechei o livro e corri para dentro de casa, batendo a porta atrás de mim, deitei-me no meu baloiço pendurado ao tecto. Era ali onde eu gostava de me deitar para estar sozinha, comigo.
Comecei a ler o livro do princípio...
Algumas semanas depois, sentei-me em frente a um lago a olhar para a pedra que Arthur me havia dado. Era de um azul forte. Até que alguém me tapou os olhos com as mãos e me sussurrou ao ouvido: "Não consigo viver sem ti, amo-te". No mesmo instante, senti o coração a tentar sair-me do peito. Voltei-me e não queria acreditar, era ele, ele havia me encontrado!
Numa noite de luar, Arthur apareceu no meu quintal e espalhou várias pétalas de rosas que iam desde a porta de saída até ao baloiço de jardim. Depois, tocou à campainha e correu até ao baloiço. Ao abrir a porta, segui as pétalas e lá estava ele, sentado no baloiço, com mais um livro que me ofereceu e que eu nunca cheguei a ler, guardando-o na gaveta. Também me deu um colar com uma pedra: esta era de um roxo pouco carregado. Mas, desta vez, ao colocar-mo, disse: "Quando esta pedra quiser voltar a casa, será porque um de nós morreu". Com isto estava a querer dizer que nunca nos iríamos separar.
Perguntei-lhe porque me quisera ver ao meio da noite e ele revelou que era para se certificar que eu estava a sonhar com ele.
Todos os momentos passados com Arthur eram assim como estes, de uma grandeza enorme.
Alguns dias após a morte de Arthur, revi um dos filmes que havíamos feito numa das nossas viagens pelo mundo.
Depois de algumas paisagens, aparecemos os dois abraçados e felizes. Lembrei-me do calor do seu corpo, do toque das suas mãos, do sabor dos seus lábios.
Parei o dvd e passei o dedo no rosto de Arthur, quando dei por mim estava a chorar! Como não era capaz de parar, enfiei o punho cerrado na boca para não fazer barulho.
Como era possível estar-se tão vivo num momento, e depois parar tudo, não apenas o coração e os pulmões, mas a forma como sorria devagar.
"Não consigo viver sem ti" costumava ele dizer-me, e agora apercebi-me que ele nunca teria de o fazer.
Retirei o colar que ele me dera e guardei-o na gaveta, junto das suas pedras.
Ouvi no dvd ele dizer "volto já".
Desliguei o televisor e retive aquelas últimas palavras como se Arthur ficasse assim, suspenso para sempre, à espera que eu o encontrasse, de novo.
Acabei de ler o livro e na última página dizia: "O melhor de ti comigo irei levar e por ti, sempre irei olhar."




Algumas expressões retiradas do livro "Dezanove Minutos" de Jodi Picoult.


Catarina Cachada

Escrevi sobre Arte!


Notável paisagista, caricaturista e retratista barcelense, Gonçalves Torres, foi uma prestigiada descoberta para mim.
Numa tarde um pouco atribulada resolvi ir até à Biblioteca Municipal de Barcelos, distraída com os meus pensamentos, falando com os meus botões. De repente algo me despertou a atenção, um cartaz que anunciava uma exposição de pintura que lá se encontrava desde o dia 21 de Fevereiro até ao dia 30 de Março. Achei interessante e resolvi ir ver. Fiquei surpresa, pelo seu cariz realista, com as 34 obras de arte, cujos temas eram paisagens, monumentos e “gentes” de Barcelos.
Gonçalves Torres desenhava com sentimento, pintava com o coração. Todas as paisagens retratadas transparecem jovialidade, algo que hoje em dia já não se sente “por cá”; fazia caricaturas e retratos de ricos e pobres (pobres na maioria), talvez porque se identificava mais com o lado mau da vida, devido ao facto de ser proveniente de uma família não muito abastada.
Tendo Braga como”casa”, Barcelos esteve sempre no seu horizonte, onde tudo tinha começado. Como barcelense sempre irá ser recordado, esta ilustre semente que um dia voltou à terra onde foi semeada.


Heika Castro

Os Galos Aconselham

Esta semana os Galos aconselham:

Cinema:
Em Paris (2006), Christophe Honoré

Literatura:
Dezanove Minutos(2007), Jodi Picoult

Arte:
Exposição "Timor Loro Sae", do Museu da República e Resistência
(Biblioteca Municipal) 3 a 20 de Abril

Musica:
Against Which the Sea Continually Beats(2007)
Glenn Jones


Os Leopardos

Nós éramos os leopardos, os leões. Os que tomarão o nosso lugar serão chacais, hienas. E todos nós, leopardos, leões, chacais e carneiros, continuaremos a pensar que somos o sal da terra.

(Burt Lancaster, in Il Gattopardo de Luchino Visconti, 1963)


A Revolução Francesa acabou. O Racionalismo já foi inventado. O Grito do Ipiranga já se sucedeu. O nazismo já foi, embora que em teoria, erradicado. O Existencialismo perdeu o fulgor de outrora. O próprio Muro de Berlim não aguentou. Tudo acabou. Não sei muito bem sobre o que escrever, dado que não existem mais razões para continuar. Condeno-me já às consequências do que não sei.
É também de mau tom especular sequer que será aqui a fonte da invenção. A questão é: até que ponto precisa o Homem de estar em constante mutação, ou melhor, em constante descoberta, para seu valor (não) ser testado.
Julgo haver nesta sociedade tema para continuação. Falo da sociedade portuguesa ou na mundial, talvez apenas na barcelense. De qualquer modo, o ser humano parece-me todo igual (este “igual” pode ser tema de “discussão”). Penso existir uma força que o faz mover-se. Do meu profundo idealismo acredito não ser a economia a dita força. Não sei se essa força vem dos clássicos. Ou da música. Da erudição em geral. Ou se por sua vez é fruto de ideias mal digeridas da televisão pública.
Resta a política: o crucifixo da nação. A rua volta a encher-se, desta vez com o vazio de idealismo: herança perdida. Será a rua determinante agora? As palavras fluem novamente, mas sem a intenção de outrora. E aqueles cujo passado se impõe em seus currículos negam o poder do partido morto, não regenerado. O barco continua a navegar mas em breve se afundará. Enquanto isso permanecerão a olhar o que já passou.
Digam à vontade que este, ou outros textos, são de cariz político ideológico invertido à esquerda radical. Não me interessam conclusões. Busco argumentos. Além disso a extrema-esquerda está morta. Resta a tristeza do falhanço...
Assim sendo, na bonita arte de maldizer condiciono-me agora numa luta, à partida, perdida. Tão pouco o farei. Numa tentativa frustrada de não escrever o que penso, mas sim o que “deve” ser dito: negarei alguma vez ter assistido a uma aula de filosofia. Efectivamente os tempos estão a mudar. E nós, os leopardos, permaneceremos aqueles que, fingindo não ver o vento passar, continuarão a ser a essência deste mundo...


Isabel Arantes

quinta-feira, 13 de março de 2008

Os Galos Aconselham

Nesta semana os Galos aconselham:

Cinema:
8 1\2 (1963), Federico Fellini

Literatura:
O Triunfo dos Porcos (1945), George Orwell

Arte:
Gonçalves Torres, Exposição de Pintura
(Biblioteca Municipal de Barcelos) 21 Fev. a 30 Março

Música:
Highway 61 Revisited (1965)
Bob Dylan

















Idiotices Superiores

Entraste na sala e disseste que não estavas a perceber. Não havia muito que perceber, mas tu necessitas perceber. Uma série de TV; um livro fechado: Cultura ocidental. Tua beleza é estonteante, embora eu não a veja. Há quem a veja. Eu não a vejo. Há quem mais não a veja. Embora haja quem a volte a ver.
A cultura é especulativa. Há quem tenha visto cinema, há quem tenha lido revistas periódicas. Há aqueles que não percebem nada do nada. Porém, a arte não tem nada que perceber. Há os que lêem jornais sem os abrir. Tu não fazes parte de nenhum dos grupos. Tu és o grupo. Não me apetece muito falar do que penso sobre ti… Desaparece-me da frente!
Não me livro de ti: ó Praga! Verdadeiramente falando, eu nem sei quem raio tu és. Imagino que sejas delírio do meu subconsciente. Não estou sequer interessada em saber quem és. Tu não és. Porcaria de pseudo intelectuais. Nascem num mundo que é deles e transformam-no em alternative para estarem in.
Lápis Azul!
Os tais, heterónimos de zebras sem riscas; camelos sem bossas; eunucos sem castração. Anormais por normalidade. Que mundo este de energúmenos inteligentes. Consciência social e política subjacente à doçura da idiotice. Filas e filas de zero e números outros cheios de nada.
Escrevo agora, com febre e sono, e de minha aparente loucura desejo a morte aos mortificadores do cérebro. Telefono ao caixote do lixo e peço-lhe boas novas: de lá vem um catálogo de revistas cor-de-rosa. Não me despeço, porque quem escreveu este texto não fui eu: enviaram-me um mail...


Isabel Arantes

Última Hora

Abram as cortinas, barcelenses! Finalmente foram lançadas notícias fresquinhas (não tivesse a Primavera chegado mais cedo!) do maior interesse para todos nós!
Acalmem vossos corações esperançosos porque nem tudo são más notícias. É com profundo orgulho que divulgo aqui, em primeira mão, que Barcelos foi, ao longo de todos estes séculos de História, injustamente situado nos mapas como sendo uma cidade do Minho de Portugal! Barcelos é sim localizado mais a Sul do país, mais propriamente na Margem Sul de Lisboa, algures nos arredores de Alcochete! Está assim provado o porquê da célebre frase de Mário Lino, consagrado Ministro das Obras Públicas nomeado pelo Dr. (engenheiro?) (arquitecto?) José Sócrates, que afirmou que “a Margem Sul é um deserto!”.
O POLEIRO sabe que nos próximos dias todo o Ministério, assim como a representante da Comissão “Mapas de Portugal”, a Dra. Maria de Lurdes Jesus, se deslocarão ao bar “Zé da Esquina”, o ponto de encontro predilecto dos principais intelectuais barcelenses (dos jovens aos mais velhos, todos elogiam “as bifanas à D. Sebastião e as minis do Zé”), assim como do próprio Dr. Fernando Reis, Sr. Presidente do Município de Barcelos. Esta reunião tem como objectivo a realização de uma conferência de imprensa (exclusividade de direitos televisivos atribuída à TVI) onde os mais altos representantes do Governo português pedirão, publicamente, desculpas a todos os barcelenses pela contínua insistência nesta gralha na colocação geográfica de Barcelos aquando das elaborações dos Mapas de Portugal, ao longo de todos estes séculos de existência do país. Diz fonte próxima do Governo que esta gralha foi “implementada por D. Afonso Henriques, que confundiu a cidade de Barcelos, na Margem Sul, com um imenso vale à beira-rio, onde havia combatido anos antes, esse sim, no Minho”.
È também de salientar um grande evento que terá início logo que terminada a tal conferência. Está já confirmada a presença de Luciana Abreu, a famosa Floribella, Ana Malhoa e o grande mestre da concertina de Barcelos, o próprio Zé (da Esquina)!!! Este revela-se assim o maior evento cultural realizado em Barcelos no último século e meio, aquando do concerto de José Cid, então trintão. “Um concerto memorável!”, exclama com ar sonhador a Dona Aurora; “foi nesse concerto que o António se declarou a mim enquanto o Cid cantava: ‘como um macaco gosta de bananas, eu gosto de ti (…)’”, continuou. Perante este enorme concerto a ser realizado em Barcelos, em data ainda desconhecida, O POLEIRO encarregar-se-á não só de publicitar tal evento cultural, como também estará na primeira fila a aplaudir os artistas.
Outras importantes notícias do concelho de Barcelos são o novo adiamento do “Lançamento da Primeira Pedra” do Teatro Municipal Gil Vicente, desta vez com o argumento de que “não estavam garantidos os serviços mínimos de segurança para a população que desejasse presenciar o evento, uma vez que não haviam guarda-chuvas suficientes para proteger toda a gente de uma boa pedrada na cabeça”, informa um funcionário público que observava a beleza dos dejectos que as aves barcelenses largam diariamente nos parapeitos dos edifícios da consagrada “Rua Direita”, em Barcelos.
Destaque também para o Prémio Honorário atribuído pelos Amigos do Cávado ao Município de Barcelos, pelos serviços prestados na eliminação dos mais variados tipos de “parasitas” existentes no rio Cávado, através do envio de substâncias altamente benéficas e odoríferas para este rio. Este cenário delicioso pode ser observado nas margens do rio Cávado, sobre o qual se estende a tão afamada cidade que tem como principal referência o facto de o “seu” Feriado Municipal acontecer no mesmo dia em que Maddie desapareceu.


Voltarei,

Agripa

The Glockenwise


Os bairros mortos, as ruas apagadas, o preto que se apaga e um silêncio que se multiplica. É a fotografia que já não se consegue em Barcelos. O ruído cresce, a curiosidade aproxima-se e aglutina um amontoado de notas amplificadas que nos fazem lembrar que os tempos de revolta de uma juventude já passaram mas ainda vivemos para fazer mais, nós e aqueles que incomodámos.
Não são completamente inovadores, mas as atitudes que marcam e defendem espíritos livres libertam e gritam todas as hipocrisias, vive a verdade sem matar a espontaneidade pura.
Muitos dizem que o “Rock Rola em Barcelos” e que se faz com uma entrega que tem que ser premiada pelo reconhecimento. Que bom que existe tanta qualidade e tanto a dizer fora do nosso quintal, mas não teremos já algo suficientemente digno de ser procurado? Não peço para fecharem as fronteiras, apenas olhar de forma centrípeta antes de apregoar o mundo perdido.
Barcelos tem uma hipótese, primeiro esquecem tudo o que escrevi, as introduções e apreciações nunca serão as mais adequadas. Agora descubram:

http://www.myspace.com/theglockenwise
Alberto Peixoto

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Exposição – “Rosa Ramalho: A Colecção”




Local: Museu de Olaria – Sala de exposições A e B

Duração da exposição: até Junho de 2010



No dia 3 de Outubro de 2007 visitamos esta exposição que se encontra no Museu de Olaria da cidade de Barcelos e que visa a conservação e divulgação da fabulosa e notável obra de olaria de uma das mais célebres e prestigiadas figuras barcelenses, e até nacionais, nesta verdadeira “arte manual”. Falamos, claro está, de Rosa Ramalho.
Ao longo da visita às salas A e B do museu, deparamos com várias peças (cerca de 342) com os mais variados temas, desde retratos e figuras representantes da “Última Ceia”, passando por representações de vindimas, procissões e outros ritos tradicionais.
É de louvar e consagrar esta iniciativa do Museu de Olaria e da própria Câmara Municipal de Barcelos já que mostra ao público cerca de 342 peças julgadas caracterizantes da obra de Rosa Ramalho, mantendo assim bem acesa a memória dos barcelenses para com a vida e obra desta grande figura conterrânea.

Aconselha-se.




Alberto Peixoto
Catarina Cachada
Isabel Arantes
Jorge Marques