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sábado, 14 de junho de 2008

Existencialismos:

 





VAZIO 








Zita Esquerda de Sá








sexta-feira, 13 de junho de 2008

Façam Vénia

Eu. Começo a reunir forças como reunia tropas. A minha juventude passada ajuda-me a combater as excentricidades excessivas de jovens que aparecem e pensam que ao ser criativos todos os seus actos serão justificados.
Barcelos minha já foi, num tempo onde cultura se fazia com base na nossa gente, viam-se as caras das pessoas no meio de campos de milho, as saias bailavam ao vento como uma bandeira de uma nação forte e sem actos com falta de responsabilidade. Há muito tempo que queria dar o meu tempo para explicar aos nossos jovens como podem ser respeitados de novo. Antes deste conformismo geral que se instalou nos cadetes da vida faziam-se revoluções para melhorar o seu redor, agora sou eu que aconselho a revolução dentro de cada um dos insubordinados.
Amem as vossas mães e pais, pois cedo e bem ficarão com semelhante encargo. Construam, empreguem, falem! Mas não entorpeçam regimes com as vossas causas fúteis. Formem um pelotão organizado de pensadores que não pensem com as palavras dos outros: fogo neles! Quero ver a disciplina outra vez, por isso vamos lá fazer uma vénia. Façam, façam porque quem manda é quem tem o poder e não quem é mandado.
Podem dispersar.

General Antunes

terça-feira, 3 de junho de 2008

Palco

Entrei na sala de cinema, escura e com um claro odor provindo do ar condicionado, cuja última prestação fora paga no mês a seguir à queda das torres do World Trade Center, me sufocava e convidava a sair. Estava vazia, ou assim o pensava eu, e por entre a falta de clarões verifiquei que afinal alguém permanecia na fila L ou P, com margem de erro 2: aquela letra em comum. Lugar 1. Quando tudo surgiu...
Ó límpida imagem, porque te foste? És mais não uma razão. Então. Redonda volta e círculo. Almejo por melhores dias de circuito. Ó floresta aquática: de sombra. Simples em rudeza. O tudo é teu. Somos todos teus. Vi-te e não te vi, continuamente... não! Era um rescaldo. Desviarem-se. Voltei. Olhei. Reparei. Sinónimos outros usei. Analisei. Esperei. De novo subo a escada. De novo a desço. Luz. Cor. Não luz. Diria cor. Voz precoce: grave! Sorriso ultrapassado: Leve. Melodioso. Nem grave, nem agudo. Soube um adjectivo. Não me parece que voltem lá. Talvez hoje mas não amanha. Assim eu fugia: caminho. Falo e falo. Quer dizer, não falo assim tanto. Distante é o Paraíso. Distante, mas não longe. Suponho. Nós somos os sobreviventes. Eu sou.
Oblíqua ceifeira difusa, por entre sons confusa. Não me parece que haja um sentimento consequente. Ora lá, que desespero não existente. Veste-te e foge. Corre. E chegarás a tempo. Além-mar verás o que os pagãos te grunhiram. Longe do Paraíso, por entre impérios e céus: tudo transparece, o sonho humedece depois de tudo, do nada, algo resta. De novo dor. De novo fuga. Razão e mente. Razão novamente; argumento racional, com espelho sensitivo. De novo razão. A culpa surge e o retrato perde o brilho do rosto. A alma reluz por entre sombras. O nome te define. Inevitavelmente. A concepção e a solução sem a diferença dos que acreditam na possibilidade. Naquela obra mal realizada, deficientemente realizada. Eu acredito na leveza insustentável do ser. É possível; não é utópico. A todos aqueles que acreditavam eu glorifico! É possível (o que por si só já é utópico...)! Dá uma sugestão diferente, pode ser que consigas alcançar o número da sorte e difundir a tua identidade num cartaz de rua, rasgado e sujo, sem luz ou cor, ou preto, ou branco, ou amor, antagonismos e compaixão. Exarcebados. Liga-te e não repitas as arestas; inventa-as... Cuidado com os pares, eulariza-lhes a fonte!
Barroco em som, em intransigência. Vê como te choro, vê como fiquei, sem sangue e sem lágrimas. No céu virá o futuro: da chuva, ou de um meteorito. Nada mais tenho que sentir, além do pós Classicismo. Vê como te luto em sangue e em lágrimas. Consigo viver não, que não sons de claviers fantasmas. Sem grande pendor técnico. Apenas a melodia que navega por entre ruas e vielas, obscuras e apagadas. Nada mais decadente há que o final de um livro realista: quando o pano cai, e a natureza humana é deposta: melosa veia artística pastosa. Melancolia observada ao longe por racionalistas do coração. Femininamente falando, não há nada a dizer. Ninguém depois do sufragismo voltou a ser personagem do final realista. Elucidamente descrente.
Gostava de te transcrever em palavras aquele som, lá ao fundo, do piano sobrevivente, observá-lo e após isso, reivindica-lo só para ti, e depois, nada mais existir...




O cinema fechou as portas.
L.S.A.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Uma questão de equilíbrio

Acordes suaves de uma melodia
composições reconfortantes de um livro,
posso saltar nota a nota rumo à cultura.

Sentimentos que jorram numa torrente de emoções
o deserto de uma cultura barcelense, uma luz na escuridão.

Um pedaço de um trailer uma cena no vendaval.
A minha cultura solta nas mãos de um qualquer
uma tela pendurada no vazio,
uma exposição, um último pedido de atenção.

Uma letra solta veio mergulhar no nada,
canções entrelaçam-se ao vento.
Olhei uma pintura amontoada,
orvalhava cenas de um filme.

As palavras são simples essência da vida
canções de amargura,
telas pintadas que se infiltram na pele
algo que vem e que vai,
mas a cultura fica.

Surgiste como um suspiro de leve
e sem palavras te impuseste
aproximaste-te do meu concelho
e a sorrir apertei o galo junto ao peito

a tremeluzir uma réstia de cultura...

Catarina R. Cachada

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Coda

Enquanto Antoine Doinel ouvia Bach, e Simone de Beauvoir traía Sartre, eu acordava com uma dor de garganta. Vem a dança do amor mascarada de ponteiro do musical flagelo da morte, ocultada de valor intrínseco da verdade. Não interessa de qualquer forma: o poema nunca é o que o poeta quer que seja.
Sorriam para a fotografia porque a câmara é cybershot. E depois limpem as lentilhas porque na rua diz: Revolução. Passem por Coimbra e talvez encontrem o fantasma da manifestação estudantil. Enquanto isso provem os pastelinhos de Belém, e se a empregada de balcão vos queimar a canela, digam-lhe: “Adeus minha musa. Era de ti que fugiam os marinheiros. Os mesmos a quem tantas pragas o velho do Restelo rogou. E sobre quem Camões, enganadinho, coitadinho, tantas vezes escrever ousou”.
Mas deixem-se lá disso pois a festa aí está. Há sempre a estação de serviço e a paixão desolada. Tristes daqueles, solitários em sentimento, que encontram a solitude da inteligência. Após o que não há possível retorno: depois da tempestade vem o dilúvio. Noé construiu a arca, mas Kant pensou, e tudo acabou. Comeram muitas bolachas, porém ainda não descobriram que o “e” pode ser antecedido da vírgula. Desvantagem minha o estar a descobrir. Caso conseguisse, esquecer-me-ia do “e” depois da vírgula. Talvez não valha o esforço: a perestroika anda por aí... Lembro-me do que não era o ser e do que o existir não deve ser. Há uma volta que volta, ali e aqui, perto e distante. Assim sendo, o rio é venturoso e o mar é pavoroso.
Rimo, em fel e suor, tal como num espectáculo deplorável e assustador. Intragável. A felicidade desprovida de cérebro é deprimente, autoritária, sick. Por isso parem lá de aparecer online porque há já muito tempo que eu estou em another line.
Em suma: sejam felizes, e derrubem Barcelos: para quê conhecer a doença quando não há remédio? Levantem-se e batam palmas, porque o teatro ainda agora começou! Eh la oh!


Isabel Arantes

Gigue

III
Queria ir ao concerto. Queria que o tema deste texto fosse real, existisse. Mas que interessa? Nuns dias esqueço tudo. O cérebro humano é fascinante: permite esquecer o que não é importante. Vamos fingir:
Acordei às 7h. Era o segundo dia da viagem, suas razões já expliquei, e não me apetece dizer tudo de novo. Anyway, pus os pés a caminho e fui por esse mundo fora. Caminhei até me esquecer de como conjugar o verbo “andar”. Continuei e não parei. Fazia calor, e eu nada tinha, excepto a típica mochila às costas. Andei mais um pouco, cansei-me e andei mais um pouco.
Vi um mundo que não tinha visto até então. Vi casas em cima de nuvens, vi flores a crescer em pedra, vi uma cadeia de lojas a fechar, vi um buraco negro. Depois apareceu uma mulher idosa, com ar de vidente (sim, sim, aquelas com verrugas, mãos magras e finas, cabelo grisalho e voz rouca) que me disse que meu lugar não era ali. Eu fugi por entre sombras e nunca mais a vi.
Ao passar pela rua 33 do sítio X vi um homem a morrer de angústia: a sua vida tinha sido levada por uma cabra. Claro que logo de seguida a Maggie (como lhe chamavam) veio aos gritos dizer que a cabra não tinha como levar a vida de ninguém, porque a vida é impossível de esconder no bolso.
Continuei a caminhada. Perdi o meu ipod. Ai é verdade, eu não tenho ipod. Enfim, perdi o meu gira-discos ambulante. Estava a ouvir o Mr. Tambourine. Ele dizia-me que estava pronto para ir para qualquer sítio. Tudo o que eu pensava era em saber o que fazer. Ouvia agora Desolation Row. Mas estava, na realidade, a pensar na bomba atómica.
Andei e andei. Sinais de cansaço apareciam agora. Não quis mais continuar uma luta que não era a minha. Não mais consegui ler. Percebi finalmente que não tenho que pertencer a ninguém. Nem sequer a mim própria...
Logo a seguir entrei na toca do lobo. Mas que diabo: estava tudo pedrado. Não consegui falar com ninguém. Havia lá um miúdo muito jovem. Simplesmente lhe chamavam “Citizen K”. Despido de jovialidade. Tentei animá-lo e fazê-lo voltar a si, mas estava com demasiadas toxinas e elementos estranhos no sangue. Até que veio a mãe dele e me perguntou porque tinha drogado o seu filho. Eu disse-lhe que nunca o tinha visto antes, que apenas o tentara reanimar. Como é imaginável, a senhora não acreditou em mim. Estava furiosa. Partiu os meus discos e disse que Bob Dylan era música de Satanás. Desta feita quem ficou furiosa fui eu: chamei dois arruaceiros dos Hell’s Angels, acabadinhos de sair da “prisa”, ainda fumegavam e tudo, para lhe darem uma lição. Quando dei por mim já lá estava aquela miúda do telemóvel que, após ter batido na Prof. de inglês (porque nunca mais nenhum professor de francês se aproximou dela...) e assistido ao milésimo nono episódio daquela série, cujo nome não é digno de ser pronunciado neste local, resolveu juntar-se à festa.
Tudo o que eu agora queria era dormir. Ideais como liberdade, igualdade, (fraternidade), justiça social, viagem intelectual, não me passavam mais pela cabeça. Tudo o que eu queria era dormir. Dormir e não acordar neste século. Dormir. Simplesmente dormir. Deitar-me e adormecer. Depois disso restava o sono. Aquela coisa que se dorme.
Voltava então para casa quando começaram a chover Manifestos. Porcaria de mundo capitalista que vive obcecado com economias planificadas! Comentei com alguém o sucedido. Como resposta ouvi: “De que estás a falar?”. Mais uma vez me lembrei do que dizia Travis Bickle: “Loneliness has followed me my whole life. Everywhere. In bars, in cars, sidewalks, stores, everywhere. There's no escape. I'm God's lonely man...”
Mas que hei-de fazer agora? A liberdade foi embora e já não conheço mais a constituição do corpo humano. Ficarei no oceano até começar a afundar? Entretanto alguém voltou a atacar a minha imaginação. Let’s get stone...
Resta-me o sono eterno que anseio. Assim sendo, despeço-me de ti, Zimmerman dos pobres, como um cão se despede de seu dono antes de ser atropelado: com todo o respeito e gratidão.
Cansaço.

“You lose yourself, you reappear
You suddenly find you got nothing to fear
Alone you stand with nobody near
[…]
And if my thought-dreams could be seen
They'd probably put my head in a guillotine
But it's alright, Ma, its life, and life only.”

Bob Dylan, in Its Alright Ma (I’m only bleeding)


Zita Esquerda de Sá




(By the way se terminarem de ler estas 3 partes e continuarem a pensar que sou de esquerda radical aconselho-vos a irem à lojinha de conveniência aí do sítio e comprarem uma foice e um martelo.)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Carta

Pela última vez falarei, ou escreverei, ou sequer pensarei sobre o assunto que explorarei nos próximos parágrafos. Chamem-lhe uma despedida. Chamem-lhe recomeço.
Despeço-me em breves palavras de meses da minha ainda curta vida. E tudo aquilo que penso ou crio não tem valor ou utilidade a alguém que não eu. As minhas viagens cognitivas trazem prazer, unicamente, a mim. Agradeço o bilhete de ida e volta. Todas as descobertas e procuras. A descoberta da humanidade que não sabia possuir. Mais que os protestos, mais que todas as glórias, foram os momentos simbólicos e mitológicos em que mergulhei. Parto sem peso na consciência. As máscaras foram retiradas e agora mais não tenho que recear. Nada de mim está escondido. Consigo ver para além do meu cérebro, para além do meu ser. Longe estava e voltei.
Alegria e revolta. Consonância difícil e perigosa: saudável. Os tempos andaram e tudo foi enterrado no fundo do mais profundo oceano. O barco veio e quis ser ele próprio. A escolha não foi minha. Fiquei pela metade: um dia eras o expoente, noutro já não existias.
Tal como te despediste de Woody Guthrie eu me despeço de ti. Porém sem o brilhantismo das tuas palavras. Apenas com a humildade dos meus pensamentos e o egocentrismo da minha liberdade. Encontrar-te-ei um dia quando a minha realidade não for mais Freewheelin’. Nesse dia voltaremos a ver-nos como velhos amigos. Contaremos velhas histórias, recordações e piadas familiares. Dores antigas não mais serão tristeza. De tudo não restarão acordes menores.
Despeço-me onde tudo começou: Sara.



Zita Esquerda de Sá.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A Europa morreu...

Rufando neste meu sonho impune possa eu esperar, acordar o teu indignado coração, tão velho, porém tudo neste mundo se equilibra e compensa, como já foi verificado.
Que rugas são essas tão profundas que fazes transparecer e que mesmo usando essas máscaras nem o sol consegues esconder?
Eras tão jovem, bela e ingénua que numa só palavra te descreveria como a “verde Europa”, fazes feliz a quem por ti dá tudo, quem sabe a vida. Crianças, jovens e velhos lutam do teu lado para que sejas a maior, tu ó “nostra terra”.
Mas, de verde passaste a azul e nem num piscar de olhos viraste cinzenta. Tão cinzenta como a cor das cinzas daqueles corpos que por ti passaram e que tu por seres tão cruel…simples pó se tornaram.
Porquê Europa? Porque mandaste que me ligassem a anunciar a tua morte quando já sabias que de ti já nada restava há décadas?
Se soubesses o quanto chorei para que tudo isto não passasse de um sonho…!

Catarina Cachada

Sarabande

II
Deixei de pensar. Não há muito mais a pensar. Afinal de contas a Esquerda morreu. Vá lá: isto não é música para os vossos ouvidos. Like a song (“Hey! Mr. Tambourine Man play a song for me. I’m not sleepy and there is no place I’m going to”): ouço e esqueço. Porque tenho que me deslumbrar com ideias passadas, ou com a Beat Generation? Por muito que se tente o contrário, o livro terá sempre mais valor que as suas citações mais célebres.
Pedi ajuda a Deus. Um deus qualquer; encontrei a sua morada num papel rasgado, que voou até mim, ali perto da igreja matriz. Ele disse-me para aguardar pela minha vez na sala de espera. Quando finalmente se mostrou disponível, simplesmente me sussurrou que a revolução deveria ser feita na consciência e não na rua. Aconselhou-me a aprender inglês e viajar com os
Hell´s Angels.
How many roads afinal? Hei-de desfilar os meus sonhos, em marchas e protestos, na Times Square, e nas avenidas de Washington. Ou talvez fique mesmo aqui pela Rua Direita. Caminharei ao som de hinos americanos acerca da igualdade do Homem, caminharei ao som de canções que já ninguém canta. Rejubilarei a liberdade que a morte dos meus ideais comunistas me deu.
I’ll be free at last, thank God almighty, I’ll be free at last.
Claro que algo acontecerá: não seria crescer se algo não acontecesse. Entretanto a chuva cai e faz sol: “Shit... I’m waiting for the sun to shine”. A chuva vai cair, será dura e esperançosa. Andarei por entre vales e florestas. Passarei por oceanos mortos, será como um poema paranóico, frio e pedrado. Excitante! Mas facilmente esquecível...
Convido-vos agora a não serem idealistas, convido-vos a não misturarem a sensibilidade da vossa juventude com o zelo da futura idade. Crenças e mais crenças. Acaba um dia. Tal como as conversas nas estações só duram até o comboio chegar.
Sim, eu sei. Todos aqueles que sonharam um dia ser personagens de um road movie acabarão velhos, e distantes: encaixados, e conectados com a temática de um filme de Ingmar Bergman. Verão à vossa frente relógios sem ponteiros e relíquias do princípio do século XVI. Passarão a adorar as vossas glórias passadas e o tempo fluirá. Dirão com prazer que o vosso ídolo de juventude era o Álvaro Cunhal, mas nunca leram o Manifesto. Esperarão, secretamente, uma revolução que nunca chegou. E para quê? A tal viagem nunca foi feita, e tudo o que viram foi a doçura da ignorância. Sentir-se-ão frustrados pelo tempo perdido em maquilhagem, e em leituras da Vogue. Perderão todos os vossos objectos míticos, ou nostálgicos: o formato digital passará de moda, e vossos descendentes não darão valor ao disco rígido do vosso coração. Haverá poetas que ressuscitarão. Serão os novos Camões, os Pessoas, os Ginsbergs descobertos e revisitados. Mesmo assim, os velhos deixarão de ser velhos pois não mais existirão rugas. Não mais serão estes os governantes: serão destituídos de seus cargos quando o primeiro cabelo ficar branco, quando a barba não mais crescer escura.
“There’s no black and white, left and right to me anymore. There’s only up and down, and down is very close to the ground. And I´m trying to go up without thinking about anything trivial, such as politics”. Porque me tenho que sujeitar a uma descoberta que não foi minha; Porque necessitam de categorizar? Respondo-vos hoje, com a sinceridade da minha adolescência não juvenil, que não o farei: Não tomarei um ou outro caminho. Caminharei onde não há estrada. Construirei a minha rua à medida que avanço.
Não me importo que falem no termo outsider. Tenho orgulho até. Por isso, se quiserem fazer a vossa viagem, vão. Aqui a “non-insider” vai só...

“The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars...”
-Jack Kerouac

Zita Esquerda de Sá

Delete

Caros barcelenses, tenho a honra de vos trazer mais uma boa quantidade de notícias do nosso tão amado concelho. Estou aqui, de novo, perante vós, para vos alertar, em “primeira-mão”, para algo que está para acontecer em Barcelos. Algo tão importante que ficará para sempre escrito nos manuais de História de Portugal dos nossos netos, bisnetos...
Tenho o prazer de vos anunciar, caros barcelenses, que Barcelos organizará o “Festival de Jazz & Blues” no ano 2061. Sim, leu bem!
O POLEIRO foi alertado para este evento bombástico pela própria Sra. Secretária da vereadora da Cultura do concelho de Barcelos. “Foi uma decisão difícil. Tínhamos várias hipóteses em cima da mesa, desde a realização do 80º Festival do Acordeão Diatónico (instrumento popularmente designado por concertina), acolhendo alguns exemplares deste instrumento, provenientes de vários países (mas tocados por portugueses), um Festival de Folclore e, até, um desfile de fardas oficiais da Mocidade Portuguesa”, informou a Sra. Secretária. Após perguntarmos quais tinham sido, então, os critérios que levaram à escolha do “Festival de Jazz & Blues” como o melhor evento a realizar em Barcelos, a Sra. Secretária da vereadora da Cultura respondeu, com a mesma delicadeza, que “Os Festivais do Acordeão Diatónico e de Folclore tinham sido colocados de parte, após vários estudos que prevêem uma inexistência de tocadores de concertina e de dançarinos de folclore no ano 2061”.
(Perante esta dolorosa afirmação, O POLEIRO contactou de imediato o consultório da famosa taróloga e bolicóloga (Bollicaologia é a arte de prever o futuro nos cromos do Bollicao), Maya. “Em 2061 existirão doze tocadores de concertina que, em simultâneo, dançarão folclore. Destes doze, dez serão barcelenses!”, afirma, com convicção, Maya. “Ah! Por sua vez, desses dez barcelenses, nove só poderão dar concertos no Auditório S. Bento Menni, o mais próximo da casa dos artistas”, continua.)
Entretanto, a Sra. Secretária finalizou a sua explicação: “Por fim, a organização do desfile de fardas oficiais da Mocidade Portuguesa está inviabilizada desde que a Câmara Municipal de Barcelos ofereceu todas as fardas a uma organização de caridade que recolhe vestuário para os habitantes do Zimbabué, que vivem numa crise social e económica que se agrava a cada dia que passa”. Perante este nobre acto, o actual Presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, já elogiou publicamente o concelho de Barcelos!
Mas não são apenas estas as boas novas que tenho para vos contar! Não, Barcelos revela-se um concelho com impressionante poder de organização de eventos. Assim, relembro-vos que, caros barcelenses, está a chegar a época mais importante para a nossa terra e, claro está, para todos nós: a Festa das Cruzes! O POLEIRO destaca, de entre os demais eventos a realizar no âmbito desta grande festa barcelense, a realização do tão esperado concurso “Quem Quer Ser o Terceiro Elemento dos Anjos?”, no dia 3 de Maio, Feriado Municipal. Para este concurso estão já inscritos nomes como Luís Represas, Paco Bandeira, João Pedro Pais, entre outros. De fora deste concurso estão já confirmados, com muita pena nossa, o grande músico Avô Cantigas e um Rotweiler, cuja “potente” voz foi mais uma das grandes descobertas que o Youtube nos proporcionou. Este Rotweiler não poderá estar presente devido a conflitos entre a sua raça e alguns Ministros do Governo Português.
Por fim, informo-vos de que o projecto da nova ponte Barcelos-Barcelinhos avança a passos largos para a sua conclusão, o que deixará satisfeitos, certamente, todos os cidadãos que têm de enfrentar enormes filas de trânsito na “Ponte Velha”, às Quartas e Sextas à noite, sempre que se aproxima a hora de início de mais um evento organizado pelo Zoom ou pelo Subscuta.
Menciono, também, o adiamento da inauguração do Teatro Municipal Gil Vicente devido a problemas de carácter “técnico-emotivos”, devido à cor do edifício que, nas palavras do nosso querido Zé da Esquina: “É uma afronta ao nosso coração barcelense. Edifício amarelo em Barcelos é apenas um, o edifício da Casa de S. João de Deus e mais nenhum! Queremos um teatro que dê a imagem de uma cidade de Barcelos vincadamente afecta a eventos culturais de alto prestígio e qualidade. Esta teoria foi já defendida pelo meu avô e eu, em honra deste meu familiar tão querido – Deus o tenha em eterno descanso! –, continuo a lutar contra a inauguração do teatro, enquanto a sua cor for amarela!”, afirma peremptoriamente esta incontornável figura barcelense.

Voltarei,

Agripa

Solidarização do Egocêntrico

Revejo-me no espelho, uma vez. Apenas uma vez até descobrir, desolar, solidificar e dizimar o que ouço lá no fundo da audiência teatral gritar. “Faz. FAZ!”, ouço-os dizer num murmúrio ensurdecedor. O personagem ao meu lado declama: “Estarás aqui amanhã, mas os teus sonhos não. Não o faças”. Convincente, quase irrefutável.
Essa falsa inocência deixa-me com febre de soltar as palavras, os meus lábios mexem mas não consigo ouvir as palavras que se formam. De repente, todos os holofotes se centram no espelho que reflecte aquilo que eu deveria ser.
Lentamente, abandono o palco, a luz reflectida pelo espelho persegue-me, ofusca os demais aqui presentes. Alguém transporta o espelho, que ainda reflecte a minha imagem, para o centro do palco.
Continuo, sem o menor ruído, abandonando o espaço. Do meu lado algo avisa “PROIBIDO fumar”. Um impulso, só preciso de mais um impulso para alcançar essa porta de ferro. Parece entreaberta! No chão um painel publicitário que anuncia “Coming Soon”, mais à frente o interruptor. Apresenta-se off.
Uma mão suave me agarra, de ancestral toque e subtileza, que apenas permite a percepção de sua presença através do odor pleno de êxtase liliáceo que liberta. Pormenor? Pontas pavorosamente massacradas pelo acaso. Esta mão tem tão grande poder que nem toda a força conhecida a separaria do meu braço amedrontado, que segura.
“Pensas que consegues trocar um sofá confortável por mudança?”
O aperto suaviza e alcanço a porta. Vejo-me rodeado por nada, um nada pronto a ser colorido, tal como a última página de um caderno que espera incessantemente que algo em si seja escrito, desenhado, riscado.
Click, a porta fecha. Caminho e as minhas pegadas ficam marcadas no nada. Não sinto, não vejo, não ouço, não cheiro, nada saboreio de tanto nada em que me perco, me infiltro, que serei dentro de breves momentos…!
Um toque suave, a percepção. Ruídos de lábios que chocam, e se reproduzem formando palavras. Um odor, o êxtase! A luz, a sombra, a cor, tudo se forma.
A mão. Essa mão, companheira de ilusões e de fantasias ao longo de toda a realidade.
“Estaremos alguma vez preparados para mais uma página? E para a última página?”, ouço.

“Não te esqueças: já estás a manusear A Página”.


Joana de Neves

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Rumos

Muita vontade tenho de partir e não mais voltar. Ir e não regressar. Começar algures noutro local. Rumar um sítio inexistente aqui. Partir no silêncio da noite, na descrição do escuro, no vácuo prometedor do agnosticismo. Sem tudo e com nada. Partir e não mais voltar.
Encontrar a liberdade que não sei existir. Romper os horizontes longínquos. Além-mar viver. Percorrer o mapa da esperança, e depois, voltar, e continuar logo a seguir. Não mais ter saudade. Não mais sentir o cinzento das ruas portuguesas, nem o peso da herança de um país que navega contra o vento da mudança.
Só, irei, partirei e não voltarei. Percorrerei a noite da luz. Serei livre e inconsciente, sem o peso da melancolia do passado. Sem folar. Correrei e sentirei. Não mais me lembrarei das ruas cinzentas do meu país. Não mais o vento marítimo português me tocará. Não sentirei saudade.
Vontade enorme de partir. Meu orgulho, herança antepassada, e pesada, morrerá. Minha alma estará vazia ao esquecer tudo o que não é meu, mas entranhado está. Irei para longe, não mais te verei...
Ó Portugal, minha casa, perdoa: a negação que faço ao que de teu há em mim; o disfarce da melancolia fadista e a cinza de minha alma. Arrepender-me-ei de omitir os acordes da tua guitarra, e de amaldiçoar tuas cidades à beira mar. Não voltarei a ignorar a tristeza das ruas e vielas vazias do interior, nem o provincianismo do litoral. Em dias tristes e opulentos viverei até teu perdão alcançar. Porém, antes, terei de partir. Liberta-me e voltarei.


Isabel Arantes

Prelude

I
“And I’ll tell it, and think it, and speak it, and breathe it, and reflect from the mountain so all souls can see it. Then I’ll stand on the ocean until I start sinkin’. But I’ll know my song well before I start singin’.”
-Bob Dylan, in Hard Rain’s Gonna fall”

Nós sabemos que drogas são más, sexo é mau, rock n’ roll já não é moda e para quem ainda não tenha percebido: o Andy Warhol já morreu. Ouço línguas e a chuva continua a cair. Da mesma forma que caiu antes. Continuo a andar em estradas sem sinalização, em oceanos sem água. É cansativa a continuidade.
Mas continuo. É uma odisseia de descoberta. Estou indo para casa, ainda não a encontrei, estou indo para lá apesar de tudo. Penso que a deixei um dia. E agora vou ao encontro dela outra vez. Não tenho quaisquer ambições: estou indo apenas ao meu encontro.
Afastadas as possibilidades extremistas. Afastados os perigos da paragem no tempo, vivo num gira-discos, sou quem não sou: obviamente gosto da ideia. Não se encontram no mapa as ruas da revolução. O sustento advém depois. Claro que neste espectáculo não se cria nada para além de tecnologia; e mesmo essa não é criada, é desenvolvida.
Penso na música americana do século XX. Música popular lá está. Aquela que falava do que mais ninguém falava. A música dos negros: Jazz! Folk Music! Blues! Depois há música dos que viam filmes do Nicholas Ray e comiam gelados em “drives in”. Aparece o Rock n’ roll! E Brando, e a moto, e Dean, e todos os rebeldes. E a paranóia. Vai tudo explodir. Virá numa nuvem e destruirá o espaço.
Ah! Como tudo isso me encanta! Tecnicholor, clima de guerra-fria, cinema Noir, crimes por resolver na Hollywood dos 50’s, estrelas de cinema com sorriso bonito e mente conturbada, escândalos políticos, assassinatos, grandes discursos na televisão, cidades cheias de cor e vivacidade que a nova moda trouxe consigo, corrupção no FBI, corrupção na CIA, revoltas na rua, estudantes furiosos, Elvis a engordar, América. Mundo. Europa. “To the moon”, gritam! Marlon Brando com a manteiga (nós sabemos onde), artistas loucos, pessoas loucas, mudança, mudança, fogo, fogo, fogo!
Em suma, se queres fazer a tua arte vai passear o cão. Porque de repente serás livre. Não terás mais a tua mente a preencher-te a mente. Não precisas escrever se não quiseres. Na verdade, se quiseres, não precisarás de fazer nada!


Zita Esquerda de Sá

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Os Leopardos

Nós éramos os leopardos, os leões. Os que tomarão o nosso lugar serão chacais, hienas. E todos nós, leopardos, leões, chacais e carneiros, continuaremos a pensar que somos o sal da terra.

(Burt Lancaster, in Il Gattopardo de Luchino Visconti, 1963)


A Revolução Francesa acabou. O Racionalismo já foi inventado. O Grito do Ipiranga já se sucedeu. O nazismo já foi, embora que em teoria, erradicado. O Existencialismo perdeu o fulgor de outrora. O próprio Muro de Berlim não aguentou. Tudo acabou. Não sei muito bem sobre o que escrever, dado que não existem mais razões para continuar. Condeno-me já às consequências do que não sei.
É também de mau tom especular sequer que será aqui a fonte da invenção. A questão é: até que ponto precisa o Homem de estar em constante mutação, ou melhor, em constante descoberta, para seu valor (não) ser testado.
Julgo haver nesta sociedade tema para continuação. Falo da sociedade portuguesa ou na mundial, talvez apenas na barcelense. De qualquer modo, o ser humano parece-me todo igual (este “igual” pode ser tema de “discussão”). Penso existir uma força que o faz mover-se. Do meu profundo idealismo acredito não ser a economia a dita força. Não sei se essa força vem dos clássicos. Ou da música. Da erudição em geral. Ou se por sua vez é fruto de ideias mal digeridas da televisão pública.
Resta a política: o crucifixo da nação. A rua volta a encher-se, desta vez com o vazio de idealismo: herança perdida. Será a rua determinante agora? As palavras fluem novamente, mas sem a intenção de outrora. E aqueles cujo passado se impõe em seus currículos negam o poder do partido morto, não regenerado. O barco continua a navegar mas em breve se afundará. Enquanto isso permanecerão a olhar o que já passou.
Digam à vontade que este, ou outros textos, são de cariz político ideológico invertido à esquerda radical. Não me interessam conclusões. Busco argumentos. Além disso a extrema-esquerda está morta. Resta a tristeza do falhanço...
Assim sendo, na bonita arte de maldizer condiciono-me agora numa luta, à partida, perdida. Tão pouco o farei. Numa tentativa frustrada de não escrever o que penso, mas sim o que “deve” ser dito: negarei alguma vez ter assistido a uma aula de filosofia. Efectivamente os tempos estão a mudar. E nós, os leopardos, permaneceremos aqueles que, fingindo não ver o vento passar, continuarão a ser a essência deste mundo...


Isabel Arantes

quinta-feira, 13 de março de 2008

Idiotices Superiores

Entraste na sala e disseste que não estavas a perceber. Não havia muito que perceber, mas tu necessitas perceber. Uma série de TV; um livro fechado: Cultura ocidental. Tua beleza é estonteante, embora eu não a veja. Há quem a veja. Eu não a vejo. Há quem mais não a veja. Embora haja quem a volte a ver.
A cultura é especulativa. Há quem tenha visto cinema, há quem tenha lido revistas periódicas. Há aqueles que não percebem nada do nada. Porém, a arte não tem nada que perceber. Há os que lêem jornais sem os abrir. Tu não fazes parte de nenhum dos grupos. Tu és o grupo. Não me apetece muito falar do que penso sobre ti… Desaparece-me da frente!
Não me livro de ti: ó Praga! Verdadeiramente falando, eu nem sei quem raio tu és. Imagino que sejas delírio do meu subconsciente. Não estou sequer interessada em saber quem és. Tu não és. Porcaria de pseudo intelectuais. Nascem num mundo que é deles e transformam-no em alternative para estarem in.
Lápis Azul!
Os tais, heterónimos de zebras sem riscas; camelos sem bossas; eunucos sem castração. Anormais por normalidade. Que mundo este de energúmenos inteligentes. Consciência social e política subjacente à doçura da idiotice. Filas e filas de zero e números outros cheios de nada.
Escrevo agora, com febre e sono, e de minha aparente loucura desejo a morte aos mortificadores do cérebro. Telefono ao caixote do lixo e peço-lhe boas novas: de lá vem um catálogo de revistas cor-de-rosa. Não me despeço, porque quem escreveu este texto não fui eu: enviaram-me um mail...


Isabel Arantes

Última Hora

Abram as cortinas, barcelenses! Finalmente foram lançadas notícias fresquinhas (não tivesse a Primavera chegado mais cedo!) do maior interesse para todos nós!
Acalmem vossos corações esperançosos porque nem tudo são más notícias. É com profundo orgulho que divulgo aqui, em primeira mão, que Barcelos foi, ao longo de todos estes séculos de História, injustamente situado nos mapas como sendo uma cidade do Minho de Portugal! Barcelos é sim localizado mais a Sul do país, mais propriamente na Margem Sul de Lisboa, algures nos arredores de Alcochete! Está assim provado o porquê da célebre frase de Mário Lino, consagrado Ministro das Obras Públicas nomeado pelo Dr. (engenheiro?) (arquitecto?) José Sócrates, que afirmou que “a Margem Sul é um deserto!”.
O POLEIRO sabe que nos próximos dias todo o Ministério, assim como a representante da Comissão “Mapas de Portugal”, a Dra. Maria de Lurdes Jesus, se deslocarão ao bar “Zé da Esquina”, o ponto de encontro predilecto dos principais intelectuais barcelenses (dos jovens aos mais velhos, todos elogiam “as bifanas à D. Sebastião e as minis do Zé”), assim como do próprio Dr. Fernando Reis, Sr. Presidente do Município de Barcelos. Esta reunião tem como objectivo a realização de uma conferência de imprensa (exclusividade de direitos televisivos atribuída à TVI) onde os mais altos representantes do Governo português pedirão, publicamente, desculpas a todos os barcelenses pela contínua insistência nesta gralha na colocação geográfica de Barcelos aquando das elaborações dos Mapas de Portugal, ao longo de todos estes séculos de existência do país. Diz fonte próxima do Governo que esta gralha foi “implementada por D. Afonso Henriques, que confundiu a cidade de Barcelos, na Margem Sul, com um imenso vale à beira-rio, onde havia combatido anos antes, esse sim, no Minho”.
È também de salientar um grande evento que terá início logo que terminada a tal conferência. Está já confirmada a presença de Luciana Abreu, a famosa Floribella, Ana Malhoa e o grande mestre da concertina de Barcelos, o próprio Zé (da Esquina)!!! Este revela-se assim o maior evento cultural realizado em Barcelos no último século e meio, aquando do concerto de José Cid, então trintão. “Um concerto memorável!”, exclama com ar sonhador a Dona Aurora; “foi nesse concerto que o António se declarou a mim enquanto o Cid cantava: ‘como um macaco gosta de bananas, eu gosto de ti (…)’”, continuou. Perante este enorme concerto a ser realizado em Barcelos, em data ainda desconhecida, O POLEIRO encarregar-se-á não só de publicitar tal evento cultural, como também estará na primeira fila a aplaudir os artistas.
Outras importantes notícias do concelho de Barcelos são o novo adiamento do “Lançamento da Primeira Pedra” do Teatro Municipal Gil Vicente, desta vez com o argumento de que “não estavam garantidos os serviços mínimos de segurança para a população que desejasse presenciar o evento, uma vez que não haviam guarda-chuvas suficientes para proteger toda a gente de uma boa pedrada na cabeça”, informa um funcionário público que observava a beleza dos dejectos que as aves barcelenses largam diariamente nos parapeitos dos edifícios da consagrada “Rua Direita”, em Barcelos.
Destaque também para o Prémio Honorário atribuído pelos Amigos do Cávado ao Município de Barcelos, pelos serviços prestados na eliminação dos mais variados tipos de “parasitas” existentes no rio Cávado, através do envio de substâncias altamente benéficas e odoríferas para este rio. Este cenário delicioso pode ser observado nas margens do rio Cávado, sobre o qual se estende a tão afamada cidade que tem como principal referência o facto de o “seu” Feriado Municipal acontecer no mesmo dia em que Maddie desapareceu.


Voltarei,

Agripa

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Século XXI sem Antoine Doinel


Paris, as ruas estão geladas e a minha mente perdeu-se no meio de toda esta apatia. Sonho com a luz da tela da Cinematheque. Outra dimensão que ninguém vê. Atingi algo que jamais fora atingido; estou numa meta que ninguém passou; o objectivo que ninguém viu ainda. Ontem ouvi meus pais discutirem mais uma vez sobre as contas a pagar, e o dinheiro que não existe para o fazer. Falam de mim e julgam que não sei. Sou criação de um ser que não existe na minha vida, talvez por isso me sinta perdido e talvez por isso não me queira encontrar.
A minha mãe está morta. A minha família é uma fachada. A escola não me responde. Fujo para o lugar onde me adaptei imediatamente:
Voltei a casa para ver o novo de Hitchcock. É o único nome que sei. De todos aqueles que vejo não sei identificar quem são, o que são, quando foram feitos. Eles em mim existem e não quero voltar de novo ao outro lugar onde não existo. Depois tudo parecia novo. As ruas, de repente, não estavam geladas, havia música no ar, e os rostos não pareciam quebrados. A luz do preto e branco inspirou-me a viver a cor da vivência não desejada para mim. O meu nome é Antoine Doinel. Vivo aprisionado a um movimento artístico e social perdido nos anos 60. No entanto continuo vivo em cada pessoa, que 50 anos depois se identifica com uma arte e com uma vida que já não existe em concreto. Estou perdido numa utopia fechada em livros de história.
Em 1968 o mundo explodiu. Assassinaram, para provar serem capazes de algo que nós, os mudos, não podíamos fazer. Deram-nos voz, segundo eles. Paris incendiou. Porém já ardia desde anos anteriores.
Nouvelle Vague é o nome. Paris o local. Truffaut e Godard os nomes mais soantes. Belmondo o rosto. Léud o meu corpo.
François Truffaut abandona a infância conturbada e renasce na Cinematheque Française. Depois de quase 3000 filmes vistos (numa época em que não existia home cinema) com 25 anos, começa a fazer críticas para a Cahiers du Cinema. Fiel ao “cineliteratura”, criou filmes baseados em grandes clássicos da literatura norte-americana e francesa. Por seu lado o Godard explodiu as suas tendências esquerdistas/ maoístas na tela.
E a Nouvelle Vague acabou.
Uma década antes os dois génios haviam colaborado. Anos antes o sonho em comum havia-se concretizado. A Nouvelle Vague não é mais que a possibilidade de jovens sonhadores, amantes de cinema, cheios de ideais e com meia dúzia de trocos no bolso, fazerem cinema. Truffaut estreia, em Cannes, “Les 400 Coups” (Os 400 Golpes): o primeiro passo. O cinema de autor ganha vida. Tudo o que F. Truffaut defendera enquanto crítico coloca em prática neste filme.
Na primeira metade de “400 Golpes” nada se vê que não desencanto, desilusão, abandono. Nos minutos finais surge a liberdade que só o cinema pode dar. O Sistema no filme de Truffaut não vence. O final de “Les 400 Coups” é brilhante!
Trazer o cinema dos estúdios para as ruas, adoptar pequenos fait-divers, explorar a imaginação dos novos autores, eram as palavras de ordem. Revalorizar o papel da expressividade física. Valorizar o papel da banda sonora.
Também Jean-Luc Godard faria o mesmo em “A Bout de Soufle” (O Acossado). A humanidade da história e a sua simplicidade, adornadas por uma Paris nunca antes filmada daquele modo, tornou o filme um ícone do Cinema e do movimento em si.
Tal como a música folk o fazia, na América, com nomes como Dylan, Baez, Seeger e tantos outros, na velha Europa o cinema acompanhava os jovens que desejosos de mudança, se inspiraram na arte do passado, para obter a liberdade do futuro. O cinema de autor foi um pontapé no sistema. Ninguém escapou imune: a educação, os valores, a família, as instituições foram criticados.
Em 1968 a revolução toma a Europa mais uma vez. Em Cannes, os jovens controlam o festival. Em Paris, os jovens controlam as ruas. Maio de 68 ficaria para sempre associado à revolução.
O sonho finda!

Em discurso directo, Antoine Doinel