quinta-feira, 3 de abril de 2008

Os Galos Aconselham

Esta semana os Galos aconselham:

Cinema:
Em Paris (2006), Christophe Honoré

Literatura:
Dezanove Minutos(2007), Jodi Picoult

Arte:
Exposição "Timor Loro Sae", do Museu da República e Resistência
(Biblioteca Municipal) 3 a 20 de Abril

Musica:
Against Which the Sea Continually Beats(2007)
Glenn Jones


Os Leopardos

Nós éramos os leopardos, os leões. Os que tomarão o nosso lugar serão chacais, hienas. E todos nós, leopardos, leões, chacais e carneiros, continuaremos a pensar que somos o sal da terra.

(Burt Lancaster, in Il Gattopardo de Luchino Visconti, 1963)


A Revolução Francesa acabou. O Racionalismo já foi inventado. O Grito do Ipiranga já se sucedeu. O nazismo já foi, embora que em teoria, erradicado. O Existencialismo perdeu o fulgor de outrora. O próprio Muro de Berlim não aguentou. Tudo acabou. Não sei muito bem sobre o que escrever, dado que não existem mais razões para continuar. Condeno-me já às consequências do que não sei.
É também de mau tom especular sequer que será aqui a fonte da invenção. A questão é: até que ponto precisa o Homem de estar em constante mutação, ou melhor, em constante descoberta, para seu valor (não) ser testado.
Julgo haver nesta sociedade tema para continuação. Falo da sociedade portuguesa ou na mundial, talvez apenas na barcelense. De qualquer modo, o ser humano parece-me todo igual (este “igual” pode ser tema de “discussão”). Penso existir uma força que o faz mover-se. Do meu profundo idealismo acredito não ser a economia a dita força. Não sei se essa força vem dos clássicos. Ou da música. Da erudição em geral. Ou se por sua vez é fruto de ideias mal digeridas da televisão pública.
Resta a política: o crucifixo da nação. A rua volta a encher-se, desta vez com o vazio de idealismo: herança perdida. Será a rua determinante agora? As palavras fluem novamente, mas sem a intenção de outrora. E aqueles cujo passado se impõe em seus currículos negam o poder do partido morto, não regenerado. O barco continua a navegar mas em breve se afundará. Enquanto isso permanecerão a olhar o que já passou.
Digam à vontade que este, ou outros textos, são de cariz político ideológico invertido à esquerda radical. Não me interessam conclusões. Busco argumentos. Além disso a extrema-esquerda está morta. Resta a tristeza do falhanço...
Assim sendo, na bonita arte de maldizer condiciono-me agora numa luta, à partida, perdida. Tão pouco o farei. Numa tentativa frustrada de não escrever o que penso, mas sim o que “deve” ser dito: negarei alguma vez ter assistido a uma aula de filosofia. Efectivamente os tempos estão a mudar. E nós, os leopardos, permaneceremos aqueles que, fingindo não ver o vento passar, continuarão a ser a essência deste mundo...


Isabel Arantes

quinta-feira, 13 de março de 2008

Os Galos Aconselham

Nesta semana os Galos aconselham:

Cinema:
8 1\2 (1963), Federico Fellini

Literatura:
O Triunfo dos Porcos (1945), George Orwell

Arte:
Gonçalves Torres, Exposição de Pintura
(Biblioteca Municipal de Barcelos) 21 Fev. a 30 Março

Música:
Highway 61 Revisited (1965)
Bob Dylan

















Idiotices Superiores

Entraste na sala e disseste que não estavas a perceber. Não havia muito que perceber, mas tu necessitas perceber. Uma série de TV; um livro fechado: Cultura ocidental. Tua beleza é estonteante, embora eu não a veja. Há quem a veja. Eu não a vejo. Há quem mais não a veja. Embora haja quem a volte a ver.
A cultura é especulativa. Há quem tenha visto cinema, há quem tenha lido revistas periódicas. Há aqueles que não percebem nada do nada. Porém, a arte não tem nada que perceber. Há os que lêem jornais sem os abrir. Tu não fazes parte de nenhum dos grupos. Tu és o grupo. Não me apetece muito falar do que penso sobre ti… Desaparece-me da frente!
Não me livro de ti: ó Praga! Verdadeiramente falando, eu nem sei quem raio tu és. Imagino que sejas delírio do meu subconsciente. Não estou sequer interessada em saber quem és. Tu não és. Porcaria de pseudo intelectuais. Nascem num mundo que é deles e transformam-no em alternative para estarem in.
Lápis Azul!
Os tais, heterónimos de zebras sem riscas; camelos sem bossas; eunucos sem castração. Anormais por normalidade. Que mundo este de energúmenos inteligentes. Consciência social e política subjacente à doçura da idiotice. Filas e filas de zero e números outros cheios de nada.
Escrevo agora, com febre e sono, e de minha aparente loucura desejo a morte aos mortificadores do cérebro. Telefono ao caixote do lixo e peço-lhe boas novas: de lá vem um catálogo de revistas cor-de-rosa. Não me despeço, porque quem escreveu este texto não fui eu: enviaram-me um mail...


Isabel Arantes

Última Hora

Abram as cortinas, barcelenses! Finalmente foram lançadas notícias fresquinhas (não tivesse a Primavera chegado mais cedo!) do maior interesse para todos nós!
Acalmem vossos corações esperançosos porque nem tudo são más notícias. É com profundo orgulho que divulgo aqui, em primeira mão, que Barcelos foi, ao longo de todos estes séculos de História, injustamente situado nos mapas como sendo uma cidade do Minho de Portugal! Barcelos é sim localizado mais a Sul do país, mais propriamente na Margem Sul de Lisboa, algures nos arredores de Alcochete! Está assim provado o porquê da célebre frase de Mário Lino, consagrado Ministro das Obras Públicas nomeado pelo Dr. (engenheiro?) (arquitecto?) José Sócrates, que afirmou que “a Margem Sul é um deserto!”.
O POLEIRO sabe que nos próximos dias todo o Ministério, assim como a representante da Comissão “Mapas de Portugal”, a Dra. Maria de Lurdes Jesus, se deslocarão ao bar “Zé da Esquina”, o ponto de encontro predilecto dos principais intelectuais barcelenses (dos jovens aos mais velhos, todos elogiam “as bifanas à D. Sebastião e as minis do Zé”), assim como do próprio Dr. Fernando Reis, Sr. Presidente do Município de Barcelos. Esta reunião tem como objectivo a realização de uma conferência de imprensa (exclusividade de direitos televisivos atribuída à TVI) onde os mais altos representantes do Governo português pedirão, publicamente, desculpas a todos os barcelenses pela contínua insistência nesta gralha na colocação geográfica de Barcelos aquando das elaborações dos Mapas de Portugal, ao longo de todos estes séculos de existência do país. Diz fonte próxima do Governo que esta gralha foi “implementada por D. Afonso Henriques, que confundiu a cidade de Barcelos, na Margem Sul, com um imenso vale à beira-rio, onde havia combatido anos antes, esse sim, no Minho”.
È também de salientar um grande evento que terá início logo que terminada a tal conferência. Está já confirmada a presença de Luciana Abreu, a famosa Floribella, Ana Malhoa e o grande mestre da concertina de Barcelos, o próprio Zé (da Esquina)!!! Este revela-se assim o maior evento cultural realizado em Barcelos no último século e meio, aquando do concerto de José Cid, então trintão. “Um concerto memorável!”, exclama com ar sonhador a Dona Aurora; “foi nesse concerto que o António se declarou a mim enquanto o Cid cantava: ‘como um macaco gosta de bananas, eu gosto de ti (…)’”, continuou. Perante este enorme concerto a ser realizado em Barcelos, em data ainda desconhecida, O POLEIRO encarregar-se-á não só de publicitar tal evento cultural, como também estará na primeira fila a aplaudir os artistas.
Outras importantes notícias do concelho de Barcelos são o novo adiamento do “Lançamento da Primeira Pedra” do Teatro Municipal Gil Vicente, desta vez com o argumento de que “não estavam garantidos os serviços mínimos de segurança para a população que desejasse presenciar o evento, uma vez que não haviam guarda-chuvas suficientes para proteger toda a gente de uma boa pedrada na cabeça”, informa um funcionário público que observava a beleza dos dejectos que as aves barcelenses largam diariamente nos parapeitos dos edifícios da consagrada “Rua Direita”, em Barcelos.
Destaque também para o Prémio Honorário atribuído pelos Amigos do Cávado ao Município de Barcelos, pelos serviços prestados na eliminação dos mais variados tipos de “parasitas” existentes no rio Cávado, através do envio de substâncias altamente benéficas e odoríferas para este rio. Este cenário delicioso pode ser observado nas margens do rio Cávado, sobre o qual se estende a tão afamada cidade que tem como principal referência o facto de o “seu” Feriado Municipal acontecer no mesmo dia em que Maddie desapareceu.


Voltarei,

Agripa

The Glockenwise


Os bairros mortos, as ruas apagadas, o preto que se apaga e um silêncio que se multiplica. É a fotografia que já não se consegue em Barcelos. O ruído cresce, a curiosidade aproxima-se e aglutina um amontoado de notas amplificadas que nos fazem lembrar que os tempos de revolta de uma juventude já passaram mas ainda vivemos para fazer mais, nós e aqueles que incomodámos.
Não são completamente inovadores, mas as atitudes que marcam e defendem espíritos livres libertam e gritam todas as hipocrisias, vive a verdade sem matar a espontaneidade pura.
Muitos dizem que o “Rock Rola em Barcelos” e que se faz com uma entrega que tem que ser premiada pelo reconhecimento. Que bom que existe tanta qualidade e tanto a dizer fora do nosso quintal, mas não teremos já algo suficientemente digno de ser procurado? Não peço para fecharem as fronteiras, apenas olhar de forma centrípeta antes de apregoar o mundo perdido.
Barcelos tem uma hipótese, primeiro esquecem tudo o que escrevi, as introduções e apreciações nunca serão as mais adequadas. Agora descubram:

http://www.myspace.com/theglockenwise
Alberto Peixoto

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Exposição – “Rosa Ramalho: A Colecção”




Local: Museu de Olaria – Sala de exposições A e B

Duração da exposição: até Junho de 2010



No dia 3 de Outubro de 2007 visitamos esta exposição que se encontra no Museu de Olaria da cidade de Barcelos e que visa a conservação e divulgação da fabulosa e notável obra de olaria de uma das mais célebres e prestigiadas figuras barcelenses, e até nacionais, nesta verdadeira “arte manual”. Falamos, claro está, de Rosa Ramalho.
Ao longo da visita às salas A e B do museu, deparamos com várias peças (cerca de 342) com os mais variados temas, desde retratos e figuras representantes da “Última Ceia”, passando por representações de vindimas, procissões e outros ritos tradicionais.
É de louvar e consagrar esta iniciativa do Museu de Olaria e da própria Câmara Municipal de Barcelos já que mostra ao público cerca de 342 peças julgadas caracterizantes da obra de Rosa Ramalho, mantendo assim bem acesa a memória dos barcelenses para com a vida e obra desta grande figura conterrânea.

Aconselha-se.




Alberto Peixoto
Catarina Cachada
Isabel Arantes
Jorge Marques

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Os Galos Aconselham

Nesta semana os Galos aconselham:

Cinema:
Ed Wood (1994), Tim Burton.

Literatura:
"Adeus às Armas" (1929), Ernest Hemingway


Arte:
3 artistas 3 continentes uma mesma linguagem

(Galeria Municipal de Arte de Barcelos) 2 Fev. a 2 Mar.

Música:
Bach- Variações Golderg
Glenn Gould






Call Girl




Senhores e Senhoras, bem vindos ao cinema das mamas. Menina Soraia e suas irmãs Chaves entram em grande plano, no grande filme que se denomina Call Girl. “Bom filme” entenda-se como bom prisma sexual, que sem ser sexy, o é.
Digamos que para uns o filme é da máxima qualidade artística. Porque, segundo estes, estes mesmos, “intelectuais natos”, leitores de grandes clássicos, visionários do grande cinema de autor, falar de Portugal é falar de: corrupção, prostituição, tradições, sexo, polícias com um excelente vocabulário (onde expressões tais como: “caralho”, numa deixa são utilizadas constantemente). Estes portugueses, cultíssimos, e atentos ao mundo actual, procuram neste filme as críticas que não há no resto da arte portuguesa.
Para outros, o filme não passa de uma lavadura mal ingerida e em breve descarregada! Mamas, mas nós já falámos delas, certo? Voltamos a falar: Mamas! Há, novamente, mamas, palavrões, muitos palavrões a adornar a “história da Carochinha”…
Sem mais nada a acrescentar, depois de tal vómito, e esperando que o Mundo (não) julgue os portugueses com base na copa da menina Chaves, despedimo-nos com:



“- Tás tão fodido, meu!”
“-Mas deixa lá, se não houvesse gajos como nós o mundo era muito pior”.


Heika Castro
Zita Esquerda de Sá

Don't call me Girl

Call girl é mais um filme “português”, como tantos outros. Poderia ser louvável a leve evolução de Soraia Chaves desde “O Crime do Padre Amaro”, se este aspecto não estivesse ininterruptamente escondido pelo seu papel de “sex simbol”, com todos os atributos físicos que lhe são próprios. Figura e atributos à volta dos quais todo o filme se constrói e evolui.
Assim, Call Girl é (e repito quantas vezes for necessário!) mais um filme com “ar” de novela tipicamente portuguesa. Daquelas novelas que parecem nunca mais acabar. E isto não se deve somente à enorme publicidade que assomou o país um mês (!) antes de o filme chegar ao grande ecrã! Mesmo durante o decorrer do próprio filme, no cinema, já o balde das pipocas havia acabado há uma boa meia hora e a trama ainda se embrulhava em mais uma peripécia interessantíssima com mais um grande plano das mamas da Soraia Chaves. Uns dez segundos depois, volto-me para o indivíduo (desconhecido, e com uns curiosos 14/15 anos) que está ao meu lado e pergunto: “o que foi que ela disse?!”. Não obtenho resposta, claro. Mas o filme ainda lá está. E mais outra peripécia. E outra!
Pensei seriamente antes de dar mais esta oportunidade ao cinema português. E novamente me desiludi. As expressões faciais e verbais curiosas (no mínimo!), os actores que valem por fazerem “boas” novelas, ou aqueles que até são bons, mas já com imagem deteriorada, o argumento “actualérrimo”, todos estão lá. E o objectivo será, certamente, cumprido: grandes lucros, elevada audiência, visibilidade, bla bla bla…
Há objectivos e objectivos. O meu objectivo, esse, é louco e está encoberto. Porém, vivo ainda o sonho íntimo de um dia ver emergir alguém capaz de deixar os cinéfilos portugueses orgulhosos do cinema do seu país.
Cinéfilos que, garanto, são muitos e fiéis. Cinema que, proponho, “esqueça” Manoel de Oliveira – e toda a nostalgia do que já lá vai – e lance um olhar sobre a Europa “cultural”.
É possível.





Jorge Marques