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terça-feira, 20 de maio de 2008

Onde a cidade começa e a Linha acaba

“Então, ficamos?”, questiona. Não sei, não sei. Um primeiro olhar e reparo que talvez valha a pena ficar.
Um risco oblíquo aqui, outro risco colorido acolá, deixando-nos pensando onde começa e onde acaba este risco, ou será que é um caminho que nos faz querer seguir…Não é apenas um pintor, mas de certeza um retratista que valoriza Leninegrado e outras cidades que desconheço.
Não sei o que pensar ou o que sentir, olho e não vejo, se vejo não sinto.
É óbvio que é tinta sobre tela, mas não sei se é aquilo a que chamo pintura sobre uma tela que será visível perante uma multidão.
Continuo sem sentir, talvez seja defeito meu, ou será que é feitio?
Não interessa o meu existir, pois todos estão concentrados tentando perceber o que aquela tela significa.
Saio fora da Galeria Municipal de Arte…de Barcelos e reparo que a cidade afinal existe. Nos meus sonhos. Ups! Olho em volta e a cidade é um stress tipicamente citadino, pessoas passam de um lado para outro falando ao telemóvel. Com a família? Nah! Família, essa palavra existe. Mas qual o seu significado? Agora são apenas duas ou três pessoas que se juntam à mesa a jantar e olham para a televisão em busca de viver uma vida que não a sua.
Há duas ruas ali ao lado que possuem um cheiro imperceptível. Vão de encontro à Câmara Municipal. Uma não foi esquecida, anda em obras. Devem pensar que alguém passará por lá. Outra, essa, esquecida foi; pelas obras poderá um dia ser lembrada.
“Nada que me impressione”, responde-me, em tom cansado, uma velha da sua varanda.


Catarina Cachada

nadirafonso_400

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Don't call me Girl

Call girl é mais um filme “português”, como tantos outros. Poderia ser louvável a leve evolução de Soraia Chaves desde “O Crime do Padre Amaro”, se este aspecto não estivesse ininterruptamente escondido pelo seu papel de “sex simbol”, com todos os atributos físicos que lhe são próprios. Figura e atributos à volta dos quais todo o filme se constrói e evolui.
Assim, Call Girl é (e repito quantas vezes for necessário!) mais um filme com “ar” de novela tipicamente portuguesa. Daquelas novelas que parecem nunca mais acabar. E isto não se deve somente à enorme publicidade que assomou o país um mês (!) antes de o filme chegar ao grande ecrã! Mesmo durante o decorrer do próprio filme, no cinema, já o balde das pipocas havia acabado há uma boa meia hora e a trama ainda se embrulhava em mais uma peripécia interessantíssima com mais um grande plano das mamas da Soraia Chaves. Uns dez segundos depois, volto-me para o indivíduo (desconhecido, e com uns curiosos 14/15 anos) que está ao meu lado e pergunto: “o que foi que ela disse?!”. Não obtenho resposta, claro. Mas o filme ainda lá está. E mais outra peripécia. E outra!
Pensei seriamente antes de dar mais esta oportunidade ao cinema português. E novamente me desiludi. As expressões faciais e verbais curiosas (no mínimo!), os actores que valem por fazerem “boas” novelas, ou aqueles que até são bons, mas já com imagem deteriorada, o argumento “actualérrimo”, todos estão lá. E o objectivo será, certamente, cumprido: grandes lucros, elevada audiência, visibilidade, bla bla bla…
Há objectivos e objectivos. O meu objectivo, esse, é louco e está encoberto. Porém, vivo ainda o sonho íntimo de um dia ver emergir alguém capaz de deixar os cinéfilos portugueses orgulhosos do cinema do seu país.
Cinéfilos que, garanto, são muitos e fiéis. Cinema que, proponho, “esqueça” Manoel de Oliveira – e toda a nostalgia do que já lá vai – e lance um olhar sobre a Europa “cultural”.
É possível.





Jorge Marques