"Os olhos são um grande rio de sons
Sensações luminosas que alimentam a alma
De quem respira, como se o ar fosse mais leve,
Mais capaz de decifrar a vida
No seu enigmático esplendor.
A sombras que neles flutuam,
Levemente, do cruzamento das ideias,
Do timbre da voz do nada,
Inquieta-os, perpetuando neles a esperança
Fugitiva, que em pranto chora."
Júlia Fernandes
Passeando no Interior parei,
Num momento lancei um olhar
Sobre o horizonte enevoado,
Ferido pelos últimos raios
De púrpura e sangrento sol de tarde.
Um vapor espesso sai de corpos,
Deambulares de rua,
Onde o ruído era menor no ar
E como pilares erguiam-se
em ambas margens do rio ao céu,
O fumo de casas.
Adensavam-se umas sobre as outras,
Como rochas ou penedos
Se amontoam sobre os cimos dos montes
É como se formassem uma nova cidade
Sobre nuvens...
Era como se tudo fosse belo...
Estava a ver o mundo.
Catarina R. Cachada
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terça-feira, 5 de agosto de 2008
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Mãos
Costumamos cercar de palavras as grandes catástrofes para nos protegermos delas.
Recordo o tempo, citando palavras sem significado que sem saber bem porquê, me dão alguma orientação: fazendo-me sentir bem. O silêncio que outrora dera conta de mim, hoje sou eu quem o tenta reencontrar e trazê-lo de volta. Compreendi que se o fizesse reviver talvez reencontrasse a alma perdida que de mim voou pelos campos enormes de trigo que hoje se substituem por enormes construções.
Para mim voltar a ter alma è voltar a poder sentir que palavras justas e com sentido saem da minha boca como uma melodia que se confunde com o vento.
Palavras essas que sendo informais são a seiva da literatura, a matéria bruta a partir da qual se constrói uma história.
Da literatura que aparecera como uma criação fictícia já só lhe resta leves memórias.
Essa mão jamais a esqueceremos...
Visitem a Feira do Livro em Barcelos.
Catarina Cachada
Recordo o tempo, citando palavras sem significado que sem saber bem porquê, me dão alguma orientação: fazendo-me sentir bem. O silêncio que outrora dera conta de mim, hoje sou eu quem o tenta reencontrar e trazê-lo de volta. Compreendi que se o fizesse reviver talvez reencontrasse a alma perdida que de mim voou pelos campos enormes de trigo que hoje se substituem por enormes construções.
Para mim voltar a ter alma è voltar a poder sentir que palavras justas e com sentido saem da minha boca como uma melodia que se confunde com o vento.
Palavras essas que sendo informais são a seiva da literatura, a matéria bruta a partir da qual se constrói uma história.
Da literatura que aparecera como uma criação fictícia já só lhe resta leves memórias.
Essa mão jamais a esqueceremos...
Visitem a Feira do Livro em Barcelos.
Catarina Cachada
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Canja do Galo
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Última Página
Abri a janela e nevava lá fora. Fiquei ali a contemplar aquela maravilha natural.
Não sei por quanto tempo ali estive, especada, diante da janela. Só sei que a cada floco de neve que caía sentia mais a falta dele, do Arthur.
Sem conseguir suportar aquela lembrança, uma lágrima começou a percorrer a minha face, talvez procurando um caminho por onde seguir, um caminho, algo que eu talvez não tenha feito mais após a morte de Arthur.
Fui até à gaveta do armário onde Arthur guardava a sua colecção de pedras, pedras essas que continham um grande valor para ele – cada uma tinha sido encontrada num dos países que ele visitara. O Arthur era um grande viajante, adorava conhecer novas culturas, novos mundos, pessoas de raças diferentes.
Quando nos conhecemos, o Arthur confessou-me que todos os dias contemplava as suas pedras como quem procura algo. Tomei esta confissão como se fosse uma borboleta que pousara na minha mão por acaso: um acontecimento que era impossível prestar-lhe atenção sem arriscar perdê-lo.
Em vez de trocarmos números ou moradas, como todos os casais, ele deu-me uma das suas pedras e disse-me que não me preocupasse, porque em breve aquela pedra iria querer voltar para casa e aí nos voltaríamos a encontrar. Confesso que não acreditei muito no que ele disse. Fiquei muito triste, pois aquilo só poderia ter sido um pretexto para nunca mais nos vermos.
Passaram-se algumas semanas e eu não conseguia esquecer o Arthur, fechava os olhos e lá aparecia ele com o seu sorriso radioso como um sol de Verão; os olhos tinham um azul-vivo de um céu de Inverno; os cabelos tinham um tom de Outono.
Já não acreditava que algum dia pudesse voltar a vê-lo, a cada dia que passava sentia mais a sua falta, estava apaixonada, mas ele não sentia o mesmo por mim, certamente.
Numa manhã de sol, quando abri a porta para ir dar a minha corrida matinal, encontrei em cima da mesa de jardim, num livro aberto, uma rosa vermelha de caule longo, a marcar o seu lugar.
A página marcada falava de uma rapariga que era muito triste e infeliz, mas quando começava a ler esquecia-se da sua própria história e vivia a do livro. Ela fechava os olhos e imaginava-se em cima de um rochedo enorme, de braços abertos, e de repente a voar por cima do mar, onde a lua se fazia reflectir, e sobre as montanhas que se erguiam umas após outras, assentando depois numa cidade misteriosa em que tudo era feliz, onde até os pássaros cantavam num tom mais alegre.
Fechei o livro e corri para dentro de casa, batendo a porta atrás de mim, deitei-me no meu baloiço pendurado ao tecto. Era ali onde eu gostava de me deitar para estar sozinha, comigo.
Comecei a ler o livro do princípio...
Algumas semanas depois, sentei-me em frente a um lago a olhar para a pedra que Arthur me havia dado. Era de um azul forte. Até que alguém me tapou os olhos com as mãos e me sussurrou ao ouvido: "Não consigo viver sem ti, amo-te". No mesmo instante, senti o coração a tentar sair-me do peito. Voltei-me e não queria acreditar, era ele, ele havia me encontrado!
Numa noite de luar, Arthur apareceu no meu quintal e espalhou várias pétalas de rosas que iam desde a porta de saída até ao baloiço de jardim. Depois, tocou à campainha e correu até ao baloiço. Ao abrir a porta, segui as pétalas e lá estava ele, sentado no baloiço, com mais um livro que me ofereceu e que eu nunca cheguei a ler, guardando-o na gaveta. Também me deu um colar com uma pedra: esta era de um roxo pouco carregado. Mas, desta vez, ao colocar-mo, disse: "Quando esta pedra quiser voltar a casa, será porque um de nós morreu". Com isto estava a querer dizer que nunca nos iríamos separar.
Perguntei-lhe porque me quisera ver ao meio da noite e ele revelou que era para se certificar que eu estava a sonhar com ele.
Todos os momentos passados com Arthur eram assim como estes, de uma grandeza enorme.
Alguns dias após a morte de Arthur, revi um dos filmes que havíamos feito numa das nossas viagens pelo mundo.
Depois de algumas paisagens, aparecemos os dois abraçados e felizes. Lembrei-me do calor do seu corpo, do toque das suas mãos, do sabor dos seus lábios.
Parei o dvd e passei o dedo no rosto de Arthur, quando dei por mim estava a chorar! Como não era capaz de parar, enfiei o punho cerrado na boca para não fazer barulho.
Como era possível estar-se tão vivo num momento, e depois parar tudo, não apenas o coração e os pulmões, mas a forma como sorria devagar.
"Não consigo viver sem ti" costumava ele dizer-me, e agora apercebi-me que ele nunca teria de o fazer.
Retirei o colar que ele me dera e guardei-o na gaveta, junto das suas pedras.
Ouvi no dvd ele dizer "volto já".
Desliguei o televisor e retive aquelas últimas palavras como se Arthur ficasse assim, suspenso para sempre, à espera que eu o encontrasse, de novo.
Acabei de ler o livro e na última página dizia: "O melhor de ti comigo irei levar e por ti, sempre irei olhar."
Algumas expressões retiradas do livro "Dezanove Minutos" de Jodi Picoult.
Catarina Cachada
Não sei por quanto tempo ali estive, especada, diante da janela. Só sei que a cada floco de neve que caía sentia mais a falta dele, do Arthur.
Sem conseguir suportar aquela lembrança, uma lágrima começou a percorrer a minha face, talvez procurando um caminho por onde seguir, um caminho, algo que eu talvez não tenha feito mais após a morte de Arthur.
Fui até à gaveta do armário onde Arthur guardava a sua colecção de pedras, pedras essas que continham um grande valor para ele – cada uma tinha sido encontrada num dos países que ele visitara. O Arthur era um grande viajante, adorava conhecer novas culturas, novos mundos, pessoas de raças diferentes.
Quando nos conhecemos, o Arthur confessou-me que todos os dias contemplava as suas pedras como quem procura algo. Tomei esta confissão como se fosse uma borboleta que pousara na minha mão por acaso: um acontecimento que era impossível prestar-lhe atenção sem arriscar perdê-lo.
Em vez de trocarmos números ou moradas, como todos os casais, ele deu-me uma das suas pedras e disse-me que não me preocupasse, porque em breve aquela pedra iria querer voltar para casa e aí nos voltaríamos a encontrar. Confesso que não acreditei muito no que ele disse. Fiquei muito triste, pois aquilo só poderia ter sido um pretexto para nunca mais nos vermos.
Passaram-se algumas semanas e eu não conseguia esquecer o Arthur, fechava os olhos e lá aparecia ele com o seu sorriso radioso como um sol de Verão; os olhos tinham um azul-vivo de um céu de Inverno; os cabelos tinham um tom de Outono.
Já não acreditava que algum dia pudesse voltar a vê-lo, a cada dia que passava sentia mais a sua falta, estava apaixonada, mas ele não sentia o mesmo por mim, certamente.
Numa manhã de sol, quando abri a porta para ir dar a minha corrida matinal, encontrei em cima da mesa de jardim, num livro aberto, uma rosa vermelha de caule longo, a marcar o seu lugar.
A página marcada falava de uma rapariga que era muito triste e infeliz, mas quando começava a ler esquecia-se da sua própria história e vivia a do livro. Ela fechava os olhos e imaginava-se em cima de um rochedo enorme, de braços abertos, e de repente a voar por cima do mar, onde a lua se fazia reflectir, e sobre as montanhas que se erguiam umas após outras, assentando depois numa cidade misteriosa em que tudo era feliz, onde até os pássaros cantavam num tom mais alegre.
Fechei o livro e corri para dentro de casa, batendo a porta atrás de mim, deitei-me no meu baloiço pendurado ao tecto. Era ali onde eu gostava de me deitar para estar sozinha, comigo.
Comecei a ler o livro do princípio...
Algumas semanas depois, sentei-me em frente a um lago a olhar para a pedra que Arthur me havia dado. Era de um azul forte. Até que alguém me tapou os olhos com as mãos e me sussurrou ao ouvido: "Não consigo viver sem ti, amo-te". No mesmo instante, senti o coração a tentar sair-me do peito. Voltei-me e não queria acreditar, era ele, ele havia me encontrado!
Numa noite de luar, Arthur apareceu no meu quintal e espalhou várias pétalas de rosas que iam desde a porta de saída até ao baloiço de jardim. Depois, tocou à campainha e correu até ao baloiço. Ao abrir a porta, segui as pétalas e lá estava ele, sentado no baloiço, com mais um livro que me ofereceu e que eu nunca cheguei a ler, guardando-o na gaveta. Também me deu um colar com uma pedra: esta era de um roxo pouco carregado. Mas, desta vez, ao colocar-mo, disse: "Quando esta pedra quiser voltar a casa, será porque um de nós morreu". Com isto estava a querer dizer que nunca nos iríamos separar.
Perguntei-lhe porque me quisera ver ao meio da noite e ele revelou que era para se certificar que eu estava a sonhar com ele.
Todos os momentos passados com Arthur eram assim como estes, de uma grandeza enorme.
Alguns dias após a morte de Arthur, revi um dos filmes que havíamos feito numa das nossas viagens pelo mundo.
Depois de algumas paisagens, aparecemos os dois abraçados e felizes. Lembrei-me do calor do seu corpo, do toque das suas mãos, do sabor dos seus lábios.
Parei o dvd e passei o dedo no rosto de Arthur, quando dei por mim estava a chorar! Como não era capaz de parar, enfiei o punho cerrado na boca para não fazer barulho.
Como era possível estar-se tão vivo num momento, e depois parar tudo, não apenas o coração e os pulmões, mas a forma como sorria devagar.
"Não consigo viver sem ti" costumava ele dizer-me, e agora apercebi-me que ele nunca teria de o fazer.
Retirei o colar que ele me dera e guardei-o na gaveta, junto das suas pedras.
Ouvi no dvd ele dizer "volto já".
Desliguei o televisor e retive aquelas últimas palavras como se Arthur ficasse assim, suspenso para sempre, à espera que eu o encontrasse, de novo.
Acabei de ler o livro e na última página dizia: "O melhor de ti comigo irei levar e por ti, sempre irei olhar."
Algumas expressões retiradas do livro "Dezanove Minutos" de Jodi Picoult.
Catarina Cachada
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